Um dos assuntos da filosofia mística, metafísica ou oriental que mais parecem intrigar a mente ocidental é o do carma. A própria palavra parece tão misteriosa e indefinível que cria a impressão de que o carma é uma coisa que causa todo nosso sofrimento e infelicidade.
A palavra é de origem sânscrita, significando "ação" ou "fazer". Quando pensamos ou agimos, seguem-se aos pensamentos ou ações certos resultados. O Carma, então, é a Lei da Causalidade. Cada motivação que exerça uma ação sobre nosso ambiente ou na vida de outras pessoas, que possa invocar uma lei natural e cósmica, produzirá certos efeitos. Nada existe de sobrenatural ou arbitrário a seu respeito. Lei natural é carma. Uma pedra atirada para o alto sofre a ação da gravidade que faz a pedra voltar a terra. Uma palavra áspera é uma causa. O efeito sobre a pessoa a quem a má palavra é dirigida e sua reação à mesma também é carma. A bondade para com alguém e a reciprocidade desse alguém para com aquele que praticou o ato bondoso é outro exemplo de carma. Devemos reiterar que carma, como causa e efeito, não é sempre adverso. Ele pode ser, e frequentemente o é, salutar.
Carma é a Lei da Compensação que representa aquela forma de ação espiritual e mundana pela qual os pensamentos e ações dos seres humanos são equilibrados. Esse equilíbrio pode ser comparado ao familiar processo da natureza pelo qual colhemos o que plantamos. A lei tem sido eficientemente demonstrada na vida de milhões de pessoas, sendo um princípio bem definido manifestado por muitas experiências de sinceros estudantes de Metafísica. Atraímos para nós mesmos as condições que constituem nosso quinhão na vida.
Carma é uma lei imutável que operará tanto no futuro distante como no presente ciclo de tempo. Criamos para nós mesmos, para a vida futura, muitas circunstâncias que teremos de enfrentar. Tudo que ocorre na vida se deve a alguma causa e toda causa tem seu efeito específico. Não podemos praticar um ato benéfico nem prejudicial a outro ser humano, ou mesmo a um animal, sem que algum dia, de algum modo, façamos a devida compensação ou recebamos a justa recompensa por nossa ação.
Pela cuidadosa observação e análise de ocorrências no curso de nossa vida, muitos de nós aprendemos que nós mesmos criamos os acontecimentos e condições do futuro, pelos pensamentos que mantemos e expressamos, pelos motivos que estão por trás de nossos atos, e pelos próprios atos. Aprendemos que não há meio de evitarmos a Lei do Carma, a não ser fazendo compensação antes que as forças da lei a isso nos obriguem ou que a exigência da lei nos alcance.
Nenhum ato bom ou maldoso, nenhum pensamento ou ato justo ou injusto, compassivo ou impiedoso, escapa dos registros cármicos ou deixa de ser compensado. Pode levar meses ou anos até que os inevitáveis resultados de nossos atos nos alcancem, mas a lei é positiva e segura em sua operação.
O homem e suas leis arbitrárias voltadas para a conduta cívica e moral dos povos pode tentar compensar pessoas por suas ações, mas essa compensação nunca é tão justa, compassiva, segura e eficaz quanto a inevitável operação da Lei do Carma.
Dissemos que essa lei é imutável. Isto quer dizer que se trata de um princípio ou lei divina criada por Deus, não sendo contrária a seus divinos princípios de compaixão, justiça, perdão e amor.
A Lei da Compensação não é uma coisa cega e mecânica que exige olho por olho como o faz o homem com suas leis. Um processo deste tipo nunca é totalmente justo, nunca é compassivo e, acima de tudo, nunca é construtivo ou benéfico para o indivíduo ou para a sociedade. A Lei do Carma procura naturalmente ser construtiva e benéfica para os indivíduos e para a humanidade.
Se a Lei da Compensação é justa, compassiva e construtiva, como devemos considerá-la se admitimos que é uma lei universal de origem divina, ela deve fazer compensação por boas ações e igualdade exigir ajustamentos para más ações. A justiça da operação dessa lei empolga nosso bom senso e revela de imediato o absurdo da idéia de que a Lei da Compensação é apenas uma forma de punição de más ações.
A palavra carma foi uma escolha infeliz para descrever a Lei da Compensação. Para muitos estudantes de filosofia oriental e para muitas mentes orientais, a palavra implica sofrimento, as tribulações e provações da vida. Não é um bom termo porque, a menos que nossas boas ações fossem recompensadas, não seríamos inclinados a uma vida nobre, a fazer bem aos outros e a contribuir espontaneamente para o progresso construtivo da civilização. Se o homem só fosse punido pelo mal que tivesse feito, não seria impedido de praticar ações perversas nem seria motivado a fazer o bem ao invés do mal.
A maioria das leis arbitrárias do homem, relativas a nossa conduta social, moral e cívica, provê formas de punição para nossas ações nocivas. Mas uma revisão da história da civilização prova claramente que a ameaça de punição de más ações nunca diminui a existência do crime nem a quantidade de más ações perpetradas por aqueles que têm a inclinação para praticá-la.
Se fôssemos retirar de nosso esquema de coisas todos os louvores e compensações pelo bem que fizéssemos, logo encontraríamos mais mal que bem no mundo, a despeito de qualquer Lei cósmica ou humana de punição pela prática do mal. A operação da Lei da Compensação, por si mesma, seria razão suficiente para fazer o indivíduo esforçar-se pelo bem. Nossas boas ações, pensamentos e motivos trazem ricas recompensas com a mesma certeza com que nossas más ações e motivos trazem alguma forma de sofrimento, castigo, negação ou ajustamento. Isto imprime em nossa mente o fato de que não podemos ser injustos e maus para com os homens e Deus sem que a lição ou o princípio seja trazido à nossa atenção na forma e nas condições pelas quais a correção seja mais construtiva e marcante.
É um absurdo pensar que todo sofrimento, doença, tristeza e a chamada má sorte sejam o resultado cármico de algum ato ou intenção rude ou maldosa de nossa parte, ou que todas as bênçãos, recompensas, alegrias e a chamada boa-sorte sejam o resultado cármico de boas ações, atos bondosos e pensamentos construtivos.
Existem muitas causas de tristeza que não têm relação com qualquer ato ou pensamento maldoso ou errôneo, consciente ou inconscientemente expresso por nós, nesta vida ou em uma vida anterior. Embora seja verdade que nosso quinhão nesta vida é em grande parte o resultado do que fizemos e deixamos de fazer em anos ou épocas anteriores, a vida, por outro lado, está repleta de recompensas e oportunidades inesperadas e aparentemente imerecidas. Cada dia nos traz suas provas e tribulações incidentais, cuja causa não está nem remotamente associada com o ontem, com o ano passado ou qualquer outro ano de nossa vida, ou com qualquer ato ou pensamento de qualquer tempo anterior.
Deus e as leis cósmicas, operando de acordo com o esquema de Deus, têm o direito e a prerrogativa de outorgar ao homem certas recompensas e inesperadas vantagens que lhe permitam continuar sua missão na vida e auxiliar o próximo. Essas vantagens podem ser outorgadas inesperadamente a pessoas que nunca fizeram por merecê-las através de um ato ou pensamento definitivo, no passado.
Naturalmente, há uma causa, para que os resultados se manifestem, mas a causa não precisa ser unicamente de natureza cármica. O que o indivíduo faz com as bênçãos e oportunidades pode ser a causa de uma futura ação cármica, mas não é sempre resultado de uma ação cármica. O mesmo se aplica às infelicidades que atingem nossa vida.
Não há dúvida de que Deus nos envia bênçãos e recompensas, provas e tribulações para nos testar ou nos dar oportunidade de nos testarmos, ou contribuirmos para o esquema geral das coisas, como canais. Um grande bem foi trazido à vida de muitas pessoas pelo sofrimento, por provas e tribulações, sem a ação da Lei do Carma. Crescendo em caráter e personalidade pelas coisas que vivenciamos, tanto boas quanto más, tanto felizes como infelizes.
Tornar todas as experiências da vida um resultado direto de ações anteriores seria colocar a vida em uma base puramente mecânica, sem deixar espaço para a intervenção de Deus, ou para a expressão espontânea dos direitos e privilégios de Deus. Seria reduzir o esquema universal das coisas a um sistema de ação e reação, sem uma visão progressiva, sem consideração de expectativas, sem fator evolutivo e sem o divino elemento da compaixão e do amor.
Vem a inevitável pergunta: "Como podemos saber se uma condição que ocorre a um indivíduo, boa ou má, decorre do Carma ou de um decreto divino?". Devo acrescentar que a causa de uma ocorrência inexplicada em nossa vida presente não é tão importante quanto nossa percepção da lição a ser aprendida pela ocorrência. Se recebemos uma recompensa ou vantagem, agradeçamos a Deus e ao Cósmico por ela e compreendamos que, seja qual for sua causa, nosso dever é o de utilizá-la generosa, amorosa e construtivamente. Se nos advém uma doença ou uma desvantagem, ao invés de procurarmos sua causa no passado remoto, devemos fazer um esforço para aprender a lição que a situação possa incluir, além de fazermos o possível para sobrepujar e dominar essas condições. Com isto fortalecemos nosso caráter, aumentamos nossa sabedoria e nos determinamos a viver de modo a não merecermos uma experiência semelhante através da ação cármica, preparando-nos, assim, para enfrentar as contingências do futuro. Desta forma, estaremos nos harmonizando com a lei cósmica universal, usando nossas experiências para nossa vantagem e para o benefício da humanidade em geral.
Como o carma não é arbitrário, isto é, não é fixo nem fatalista, não há razão para que não possa ser modificado por outras causas.
Se uma pessoa tem consciência do carma adverso, resultante de uma conduta anterior, por que não deveria adotar um padrão de comportamento capaz de expor-se ao carma? Se a pessoa deseja viver uma vida caridosa e impessoal de acordo com os princípios cósmicos, ela pode fazê-lo. Com isto, põe em ação uma série de efeitos benéficos que podem mitigar os resultados de ações erradas anteriores - erradas no sentido moral. Se isto não fosse possível, não haveria razão para qualquer pessoa tentar melhorar sua vida.
Não quer dizer que, quando uma série de causas foi originada por nossa conduta, um simples espírito de contrição ou de novas intenções possa deter os efeitos de atos e pensamentos anteriores. Para usarmos uma analogia, uma pessoa pode não ter dado atenção ao bom senso em sua dieta e exagerado no consumo de alimentos ricos demais. O resultado foi um distúrbio digestivo adquirido. Uma simples resolução de alterar os hábitos alimentares não será suficiente para aliviar o problema. A pessoa terá de estabelecer novas causas para restabelecer o equilíbrio. Terá de fazer uma dieta rígida e procurar variados meios para corrigir o mal que fez a si mesma.
Em nossa vida diária estamos constantemente nos opondo ao carma e modificando o mesmo, como é nosso dever. Aprendemos lições através de maus negócios, má saúde e erros em nossa vida doméstica. Se formos inteligentes, faremos nossa adaptação a um novo curso de ação, para desfazermos os efeitos anteriores.
Se perguntarmos a um místico qual a sua interpretação do que seja um pecado imperdoável, ele deverá responder que é o pecado que viole um acordo sagrado e espiritual entre o indivíduo e Deus. A violação de um compromisso feito pelo indivíduo com seu Deus, a violação de um ideal sagrado abrigado dentro da alma como o mais elevado e sagrado compromisso, a violação de uma lei cósmica voluntariamente adotada, constitui o pecado imperdoável quando essa violação é deliberada, consciente e concebida com a plena compreensão de sua importância.
A violação de uma lei cósmica ou de um princípio divino por uma pessoa que a desconheça, ou por alguém que comete uma ação inconsciente ou impensada, pode ser perdoada se for parcialmente compensada pelo arrependimento e pelo desejo de fazer o ajustamento. Mas é imperdoável a violação de uma lei aceita pelo indivíduo como sagrada, e conscientemente proclamada como seu compromisso de sinceridade na crença religiosa, bem como seu princípio diretor no relacionamento com as leis e condições cósmicas. Assim sendo, essa violação acarreta penalidades cármicas extremas.
O CARMA NOSSO DE CADA DIA
O carma é, ainda hoje, um assunto controvertido, inclusive nos meios espiritualistas. Na opinião do médium e psicólogo Luiz Antonio Gasparetto, 2/3 da população mundial reconhecem a reencarnação como processo legítimo dentro da vida, na atualidade. Segundo ele, esse conceito nos traz uma visão mais justa da vida. Seria difícil entender o homem, sua estrutura mental e sua própria existência sem essa idéia de continuidade, de vidas passadas e futuras. É essa visão ampla de nossa passagem pela Terra como um processo que se transforma periodicamente, em ciclos, que faz com que compreendamos melhor o que se passa conosco, com o outro e as diferenças entre as pessoas: situações, personalidades, vivências.
O carma é um assunto bastante antigo. Na Índia, os Vedas já mencionavam a reencarnação. No início da era cristão, a reencarnação existia como conceito que fazia parte dos valores da religião nascente. Aliás, antes do surgimento de Jesus, já havia a Igreja Romana, corrente seguida pelos imperadores e poderosos, e o mitraísmo, popular entre os soldados romanos; o cristianismo revelou-se bem ao gosto popular, dos plebeus. Com a crescente aceitação de idéias cristãs entre a aristocracia e os militares, surgiu um cristianismo alterado, que fundia características das três correntes. Na incorporação das diferentes tendências, muita coisa foi modificada. A reencarnação foi abolida, pois tornava os homens muito irresponsáveis, donos do seu destino - um perigo que não convinha ao Estado e à Igreja. Uma vez que uma pessoa é dona do seu destino e pode sentir Deus em si mesma, está capacitada para dirigir sua própria vida e não é preciso mais usar o sacerdote como intermediário, o que poderia vir a enfraquecer o clero. Daí a força dada ao conceito de homem criado "à imagem e semelhança de Deus", e não como parte d'Ele.
Assim foi por longo tempo. Embora os conceitos de reencarnação e carma continuassem existindo no Oriente, só foram resgatados no Ocidente por volta de 1850, com os teosofistas e especialmente com a obra de Allan Kardec. Era uma época muito movimentada na França, em que a ciência começava a dar seus primeiros passos em busca de uma metodologia mais moderna, com evolução na física, na química e na biologia. Discutia-se qual a abordagem a ser dada às investigações científicas e prevalecia o positivismo: só o que era perceptível através dos cinco sentidos poderia ser considerado válido, o resto era imaginação.
Nesse contexto surge Kardec, abordando o homem como um ser total, espiritual, físico, filosófico, em busca de uma ciência integrada; parte, então, para uma metodologia própria. Suas revelações consistiam em verdadeiros tabus para a época, pois os assuntos tratados eram de domínio da Igreja, que já os havia dado por muito bem resolvidos. Comunicação após a morte, por exemplo, era atributo de pessoas especiais, como os santos; se assim não fosse, era coisa do diabo.
As pesquisas de Kardec esbarraram em várias dificuldades quanto ao material de base para a formulação de seus conceitos. A literatura disponível era de acesso exclusivo das ordens esotéricas, absolutamente fechadas. Com a publicação d'O Livro dos Espíritos, houve uma verdadeira revolução. Além da Igreja, também os cientistas positivistas da época tomaram-no como absurdo. Mas Kardec persistiu e produziu muitas outras obras sobre o assunto.
É claro que, sob a ótica atual, eram idéias rasteiras sobre o assunto, compatíveis com seu tempo. Além disso, quando se estuda a mediunidade deve-se considerar o fator animismo - e muitas idéias foram filtradas através de médiuns fortemente influenciados pelas idéias religiosas que imperavam naquela época, educados, na maioria das vezes, em escolas católicas. As mensagens encontravam limitações para serem transmitidas; o resultado poderia ser comparado a um concerto onde um exímio pianista nada pode fazer se dispõe apenas de um piano velho e desafinado.
No século passado, quando o espiritismo chegou ao Brasil, também esbarrou num catolicismo muito forte. E as lições passadas sobre reencarnação misturaram-se a conceitos católicos. O movimento espírita ainda é, na maioria dos centros, um catolicismo reformado. É comum os oradores manterem um tipo de discurso maniqueísta, do bem e do mal, onde é reforçada a lei da ação e reação, o famoso "faz/paga". Isso porque as pessoas nunca lêem um livro como ele é, mas como elas podem lê-lo. Se você fizer várias leituras de uma mesma obra, a cada uma ela lhe parecerá um livro diferente. E assim ocorre com a interpretação da Bíblia ou das obras de Kardec.
A maioria das pessoas raciocina da seguinte maneira: as causas da minha vida atual traduzem o que fui no passado e se, no passado, eu era mais atrasado do que sou hoje, o que acontece comigo nesta vida terrena é conseqüência do passado, e estou pagando pelos erros que cometi; tenho de pagar o meu carma. E os ensinamentos são reforçados por antigos conceitos católicos. É comum, por exemplo, a mulher julgar que seu carma é o marido, quando não se relacionam bem; é seu papel agüentá-lo "até que a morte os separe". No entanto, isso não passa de uma releitura do conceito católico da indissolubilidade do casamento. O carma passou a ser uma idéia imposta de crime e castigo, como se pudesse haver certas leis que enquadrassem todos os seres humanos.
Gasparetto lembra que carma (ou "karma") é uma antiga palavra do idioma sânscrito que significa tendência, ou seja, a tendência do seu ciclo evolutivo, o caminho para a sua evolução. Seria o conjunto dos determinantes do seu processo de vida. A interpretação da maioria das pessoas, porém, é que carma significa provação ou sofrimentos presentes gerados no passado. Gasparetto lembra que, ao contrário, o carma pode significar uma tendência artística, algo que venha a lhe trazer sucesso, muita felicidade, etc.
O conceito errôneo de carma baseia-se na interpretação do universo como algo mecânico, exato, no qual todas as criaturas deveriam se engrenar. O fato de as pessoas serem diferentes era apenas um capricho da natureza, nada de especial; todo mundo deveria passar pelas mesmas fases e chegar aos mesmos lugares. Todos teriam as mesmas funções e as mesmas razões de viver. A educação cuidou de tentar fazer com que todos se parecessem, estabelecendo comportamentos, esperando que, aos cinco anos, a criança tenha determinado tipo de comportamento, aos sete, outro; "isso é coisa para menino de dez anos; isso só pode depois dos dezoito" ... Essa codificação era tida como normal.
A grande novidade do nosso século foi a descoberta da individualidade, não apenas física, mas interior. Cada pessoa é única e passa por experiências que, às vezes, estão longe de serem experimentadas por outros indivíduos. Cada um tem uma função diferente da do outro. Existem semelhanças, afinidades, mas não igualdade absoluta. Cada indivíduo é um projeto acabado da natureza. "Deus não se repete em ninguém!" A lei universal não era tão mecânica quanto se imaginou. As leis da natureza são auxiliares dessa evolução. Por isso, a lei do faz/paga é absurda. Se você fez algo errado em vidas passadas e agora tem de se penitenciar por isso, quem estaria pagando seria a própria natureza. Como se Deus estivesse punindo a Ele próprio, porque foi Ele quem fez você imperfeito, com a capacidade de errar, e não poderia cobrar isso de você - somente d'Ele mesmo.
Com a descoberta da individualidade do ser humano, a psicologia passou a estudar vários campos da nossa mente. Uma das descobertas mais importantes para a reformulação da lei do carma foi a dessa zona intermediária entre a lucidez e a inconsciência, o subconsciente. Uma de suas funções é tornar as coisas conscientes, ou seja, estabelecer contato entre o inconsciente e a consciência, transformando as informações em sensações.
Consciência é tudo o que percebemos aqui e agora. E tudo o que forma a consciência passa pelo subconsciente. Este é um aparelho muito importante porque muda constantemente o seu programa de materialização, de densificação; trabalha no corpo físico tornando-nos capazes de sentir nossos pensamentos. As impressões que viemos assumindo ao longo de nossa trajetória como reais são materializadas através dele. A todo momento esses programas são mudados, e assim também nossas crenças são modificadas. Isso resulta na mudança do carma; portanto, nosso carma está mudando a cada instante.
O conjunto de crenças que você tem em seu subconsciente e que acabam gerando as mesmas situações pode ser chamado de carma. Às vezes damos oportunidade ao nosso subconsciente de agir, mas por medo da mudança, por insegurança, consumimos isso através de nossas impressões negativas, que anulam o poder das coisas boas. Essas oportunidades podem ser despertadas de diversas maneiras - quantas vezes não pedimos a Deus, rezamos, e depois temos medo de aproveitar a mudança que se apresenta diante de nós? Por que há pessoas que nascem pobres e modificam totalmente o rumo de suas vidas? O destino é escrito por nosso livre-arbítrio. É preciso aprender a dominar as ilusões para poder aproveitar as chances da vida. Quem não tem estreito contato com o domínio de seu subconsciente, ou seja, não está habituado a sugestioná-lo de maneira positiva, terá de se conformar com a idéia errônea de que carma é apenas sofrimento, algo pelo qual temos que passar para nos purificarmos. O subconsciente por si só não tem poder de decisão, de julgamento nem mesmo noção de tempo. Tudo o que ele recebe pode materializar-se, basta programá-lo de acordo com a nossa vontade. Tudo no carma é mutável, desde o aspecto físico às situações de doença, pobreza, ignorância. O subconsciente é uma ferramenta poderosa para essa reprogramação.
O corpo também é uma idéia muito controvertida na reencarnação. Muitos acham que não é possível terem escolhido um corpo tão imperfeito se havia essa possibilidade de opção. Segundo Gasparetto, quando do momento da reencarnação, o corpo físico escolhido "entra por um funil", a vida material reduz seu corpo astral ao tamanho de um óvulo. O corpo astral tem uma incrível capacidade plástica. O óvulo, no primeiro instante de recriação da vida, forma uma bola quase oca, unida por um líquido, chamada mórula. É como uma bola de células que se fecha num círculo, originando um buraco que futuramente será a nossa coluna vertebral. O primeiro movimento de modificação de óvulo é para a formação do tubo neural. Ali o ectoplasma consegue materializar elementos astrais mais densos, mais próximos da matéria, formando o primeiro neurônio. É a materialização de um neurônio astral. A partir daí o código genético passa a ser controlado, materializando o ectoplasma do sistema nervoso do seu perispírito, fornecendo os genes que vão gerar o nosso fenótipo. Aí atua também o nosso subconsciente.
Depois do nascimento, a influência ambiental modifica o corpo completamente. Há esse poder de modificação também de acordo com os novos padrões do nosso subconsciente. Uma experiência recomendada por Gasparetto é a da fixação da imagem ideal de corpo através de uma foto colocada em local bem visível; com o passar do tempo, seu próprio corpo vai adquirindo as características da imagem. O subconsciente fixa aquele modelo ideal e passa a reproduzir suas características no seu corpo. Assim também nosso corpo pode ser programado para se parecer com o de nossos pais, pela fixação da imagem através da convivência.
É certo, então, que escolhemos o corpo físico através do qual vamos reencarnar. Pessoas que conservam a idéia de que o físico não é importante, somente, o espiritual é valorizado, podem reencarnar em corpos considerados esteticamente feios. Mas sua evolução pode levá-la à completa modificação, de acordo com padrões que passem a ser considerados importantes para elas. Uma menina que pratica balé terá um conceito de corpo mais perfeccionista em termos de padrões gregos, por exemplo, do que outro que nunca teve sua atenção voltada à valorização do corpo. Assim, também os esportistas têm uma concepção de corpo diferente daquela que a maioria das pessoas procura. A busca de padrões ideais a cada um é obtida através das informações disponíveis e da habilidade de trabalhar o subconsciente. Como todos os aspectos da reencarnação e do carma, também o corpo pode ser modificado - e para melhor -, desde que a pessoa esteja aberta a mudanças.
Assim como a beleza física pode ser alcançada, é claro que todos os padrões mentais podem ser modificados. Estado como pobreza, insegurança, culpa, depressão ou medo são doenças mentais - é a imaginação descontrolada, usada de maneira inadequada. São os sânscaras (ou "sanskâras"), palavra que em sânscrito significa marcas cármicas, impressões fortíssimas que, com o tempo, acabam trazendo sempre o mesmo tipo de vivência dolorosa ao indivíduo. A nova espiritualidade vem promovendo a derrubada dos sânscaras através da reprogramação do subconsciente, substituindo os conceitos negativos por outros mais produtivos como sucesso, prosperidade, amor. Tudo isso é conquista de quem sabe usar a máquina da imaginação.
Não é preciso apegar-se à lei da ação e reação, a famosa do faz/paga. Isso é inconcebível diante de uma postura realista da vida. Essa lei ainda encontra força porque somos criados para sermos vingativos, considerando a punição como forma de aprendizado.
Punindo não ensinamos, apenas recalcamos: a situação desaparece da consciência e, reprimida, começa a aparecer de forma indireta. É revertida em tristeza, ódio, depressão, doenças, porque a energia não seguiu seu fluxo vital, não atingiu seu objetivo, não se realizou. A punição é uma forte repressão a essas forças. E como elas não podem sair por vias normais, vão procurar outras vias que o indivíduo não controla para se manifestar. Deixamos os pensamentos nos dominar. Damos importância a eles e mantemos assim o nosso carma como imutável.
É importante observar que, quando reencarnamos, tomamos decisões importantes, não com o nosso eu consciente, mas com o eu superior. A nova vida é um aprendizado e, como tal, deve provocar mudanças, e não passividade. Talvez você tenha reencarnado para trabalhar seu mimo ou sua revolta. O que não significa que você vai viver como pessoa mimada ou revoltada. As vezes isso pode manifestar-se nos pais, no companheiro, e você deve aprender com essa experiência e tentar modificá-la. Isso é aproveitar a reencarnação, não ficar passivo diante da situação, aceitá-la como pronta, acabada. É ridículo colocar-se numa situação de sofrimento para apagar um erro cometido em outra encarnação. É mesquinho, pobre. Todas as vezes que reencarnar, seu objetivo é ser feliz. A maneira para alcançar a felicidade, esta sim representa seu grande desafio. A limpeza cármica, a mudança dos sânscaras, permite que a energia flua de maneira adequada para a realização de seus objetivos, materializando o que você realmente quer. Por isso, você deve se concentrar em tudo aquilo que deseja e merece ter. Nada em suas vidas passadas pode tê-lo tornado indigno da felicidade. Se assim fosse, não haveria uma outra oportunidade para você. Cresça interiormente, sem apego às coisas materiais. Não somente aos objetos, ao dinheiro, a tudo aquilo que representa matéria. Mas aos conceitos como família, mãe, pai, filhos, marido, mulher. Todo apego motiva um carma negativo. Em cada reencarnação é preciso deixar a coisa bem acabada, para que não haja restos a resgatar na vida futura. Essa é a grande ciência, a grande sabedoria de viver bem com o carma que você tem... Apegue-se somente a si mesmo. "Só você vai viver com você pela Eternidade...", frisa Gasparetto. Nosso carma não é o mesmo a cada dia. A todo momento ele é capaz de sofrer transformações. Depende de você. Só existe o aqui e o agora, mesmo com a certeza de encarnações passadas, presentes e futuras...
FIM

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