segunda-feira, 6 de março de 2023

Ciganos Liberdade e Emoção



Liberdade e Emoção


Hábeis com as cartas, conhecedores das leis e dos mistérios da natureza, os ciganos mostram ao mundo como levar uma vida mágica, repleta de rituais e oferendas aos ancestrais.


Embora estejam espalhados por toda parte, os ciganos não se fixam em lugar algum. De natureza livre e emoções à flor da pele, esse povo sem pátria carrega consigo uma cultura e filosofia de vida antiguíssima, resistentes ao tempo, às novas tecnologias. No cerne, uma espécie de sina: a de desvendar a sorte, ensinar magias, levar a buena-ditcha, ou boa nova, como dizem os ciganos do Sul da Espanha, local que abriga uma das maiores concentrações desse povo no mundo. Além dos calóns, como são chamados os ciganos espanhóis, há grupos – os lovaras, kalderash, originários do Leste europeu, entre outros – vivem imersos em uma vida ritualística, em que todos os aspectos da existência se relacionam com energias vibratórias. Para tudo o que fazem existe uma receita, uma magia, uma forma de atrais a prosperidade, afastar as más influências e curar a doença.

“É xamanismo puro”, relaciona Albino Granado, carioca descendente de portugueses, que foi adotado por uma família cigana quando tinha 11 anos de idade. Mestres na utilização dos quatro elementos da natureza – terra, água, ar e fogo -, além de frutas, moedas e outros recursos, eles ganharam fama por representar magos, mensageiros do astral (leia “receitas ciganas”). Talvez por esse motivo também sofrem preconceito e têm fama de charlatões, mercenários. Como na maioria das tradições, não é de se estranhar que haja distorções, mas, segundo a professora de baralho e dança cigana, Josy Marcelle, existe uma regra de boa conduta para o seu povo. “Nunca se deve fazer o mal. Acreditamos na lei do retorno e na reencarnação, portanto tudo o que se fizer para o outro pode voltar para si”, afirma Josy.


Influências Culturais


Ainda que a porção mais conhecida dessa cultura seja a da fama de ladrões ou do preconceito contra as mulheres que vivem em busca de um destino a ser lido na palma da mão, os ciganos deixaram a continuam transmitindo seu legado cultural pelo mundo. Os costumes são a prova de que há sangue cigano correndo nas veias de pessoas das mais variadas nacionalidades: quem nunca ouviu falar na feijoada branca de grão-de-bico com paio, no putchero para os espanhóis, e na famosa paella. São pratos tipicamente ciganos, segundo Margarita Fasanella, conhecedora da ciganologia (ciência que estuda esse povo) e autora do livro “Cartas ciganas: a estrada da vida”.

O famoso porco assado, herança européia, ou o charuto de folha de uva, comum entre os povos árabes, mostram que os ciganos, apesar, de terem cultura própria, incorporaram novos hábitos em suas andanças pelo mundo, que não foram poucas. As influências são tantas que até o poeta espanhol Federico

Garcia Lorca dedicou parte de sua obra ao “romanceiro gitano”.

É verdade que eles entraram para a história como nômade, mas hoje grande parte dos ciganos é sedentária, moram em casas convencionais ou tendas em lugares fixos. Segundo Albino Granado, apenas de 5% a 10% dos ciganos são nômades, o restante é seminômade. Atualmente espalhados, em sua maioria pela Hungria, Romênia, Albânia, Rússia, França, ex-Iugoslávia e Espanha, eles somam um número alto de pessoas, embora não se tenha dados numéricos.

No Brasil, estão situados, principalmente, no Rio de Janeiro e em São Paulo, em especial na cidade de Campinas, interior do estado. Eles também não vivem mais em clãs como antigamente. Reúne-se em famílias, que têm um líder patriarcal ou matriarcal, chamados de pai ou mãe terrenos. Na família fala em romanês, ou romani, um dialeto próprio. “Não existe grafia para as palavras. Toda a tradição é oral”, explica Sibyla Rudana, neta de ciganos húngaros, autora de diversos livros sobre a sua cultura.


Vermelho e Dourado


Adeptos da música e da dança, os ciganos costumam dançar muito em suas reuniões familiares e rituais. Vestem vermelho, a cor da vitalidade e da alegria, e dourado, que remete à prosperidade. Nos rituais ou festividades, geralmente realizados ao ar livre, uma fogueira, que representa o elemento fogo, aquece e transmuta as energias. Alegres e vibrantes, todos dançam como força de expressão, de purificação e ligação com energias superiores.

“Não há uma coreografia. A dança è solta, desbloqueia, libera, aumenta a auto-estima”, diz Josy Marcelle. De acordo com ela, essa é uma maneira de trabalhar a energia pessoal e a do ambiente. “Os movimentos circulares com as mãos para fora afastam o negativo. Para dentro atraem o positivo. O Estalar de dedos acima da cabeça e na altura do umbigo limpam os chakras, e a dança do xale limpa no ambiente”. Ela atribui a incorporação dos cânticos da dança flamenca aos ciganos, antes apenas musicadas. Ainda de acordo com as tradições, em alguns clãs, o homem casado usa uma argola na orelha esquerda e a mulher, um lenço na cabeça. “A atitude é sempre de contato com os antepassados, buscando o equilíbrio entre o material e o espiritual”. Afirma Albino.


(OBS. Albino Granado nos ensina que na dança, o estalar de dedos na altura do umbigo e da cabeça promove a limpeza dos chakras.


Apesar de todos esses rituais e misticismo, os ciganos não têm uma religião, segundo Margarita Fasanella, aceitam todas elas. Não são devotos de um deus, mas adoram e cultuam os planetas, em especial o Sol e a Lua. Pela manhã, fazem a saudação ao sol (herança indiana) e, quando necessário, recorrem ao ritual da lua, realizado à noite.

Mesmo sem religião, Santa Sara que não é reconhecida pela igreja cristã, é a padroeira desse povo. Sua gruta está no Sul da França, na cidade de Saintes-Maries-de-la-Mer, e reúne milhares de ciganos todos os anos nos dias 24, 25 e 26 de maio, para uma peregrinação. “Dizem que Sara era uma cigana de origem calón, por isso tem pele morena (influência árabe). Há quem acredite ser ela uma santa egípcia”, conta Granado.


Milagroso Canto à Santa Sara


Farol do meu caminho!

Facho de luz!

Paz!

Manto protetor, suave conforto, Amor!

Hino de alegria, abertura dos meus caminhos, Harmonia!

Livra-me dos cortes. Afasta-me das perdas,

Daí-me a sorte!

Comanda meu destino.

Faz da minha trilha um hino de alegria

E aos teus pés me coloco,

Minha Sara, minha Virgem Cigana,

Toma-me como oferenda

E me faz de flor profana

O mais puro lírio que orna

E traz bons presságios à Tenda Salve, Sara!

Salve, Sara! Salve, Sara!



Destino nas Cartas


Talvez a parte mais conhecida da tradição seja o famoso baralho cigano. Lido pelas mulheres, que trabalham o lado lua (maternal, da sensibilidade e de proteção), ele é um instrumento para que as ciganas cumpram seu papel de orientadoras espirituais. “São sacerdotisas, têm o dom do oculto, a sabedoria das ervas, enquanto o homem é o lado sol, prático, ligado à sustentação da família”, afirma Margarita Fasanella. Sibyla Rudana lembra ainda que seu avô cigano costumava contar a seguinte história sobre o poder feminino. “A mulher tem uma coisa no ventre e no coração que o homem não tem: o dom de sentir, pressentir e interpretar. Ela tem a luz da vidência”, diz Sibyla, autora do livro “Cartas ciganas do Brasil”.


Composto de 36 cartas ou arcanos, todos maiores, o baralho original chegou ao Brasil por volta de 1500, trazido pelos ciganos que vieram com os portugueses. Cercada de rituais, a leitura, que possui diversas maneiras de interpretação, deve ser encarada com respeito e seriedade. “A magia das cartas nada mais é do que o próprio poder alquímico de transformar a vida, pela percepção do nosso mundo interior, harmonizando-o com o exterior, conforme a orientação que os símbolos enviam pelos caminhos do inconsciente”, escreveu Margarita em seu livro “Cartas Ciganas: A Estrada da Vida”.

Harmonizar o ambiente com incensos, velas e boas intenções faz parte do ritual para a leitura das cartas. Cobrar pelo atendimento é uma forma de trocar energia. Além do baralho, há outros oráculos utilizados pelo povo cigano: a bola de cristal, a leitura da borra de café e o jogo de dados e dominós, os dois últimos comuns aos homens, por serem mais objetivos.

Seguindo sua missão de levar ao mundo uma palavra de boa sorte e conforto, as cartas, assim como as receitas e magias, cumprem, de acordo com os estudiosos da ciganologia, o objetivo de fazer com que o homem encontre o seu próprio caminho. Sem esquecer, é claro, de respeitar o livre-arbítrio de cada um.


Receitas e Oferendas

Lembre-se que a matéria prima mais importante para qualquer ritual é a boa intenção.
Para atrair prosperidade e boas energias

Ingredientes:

7 folhas de louro
7 pauzinhos de canela
17 cravos da Índia
1 punhado de erva-doce
1 punhado de camomila
1 noz-moscada ralada
Banho de flor de laranjeira (comprado em lojas de artigos religiosos) 3 colheres de sopa de mel


Modo de fazer:

Ferva todos os ingredientes, com exceção do mel e do banho de flor-de-laranjeira. Deixe esfria e antes de tomar coloque a mão dentro d líquido e gire-o no sentido horário, com a intenção de prosperar. Repita o banho três vezes, intercalando dia sim, dia não, especialmente na passagem da lua nova para crescente.


Para a fertilidade e afastar a negatividade

As figas são amuletos tradicionais usados pelos ciganos, com essas duas finalidades. A mão fechada em que o dedo polegar passa entre o indicador e o anular, reproduz os órgãos sexual masculino e feminino.

Para ajudar no parto

Colocar-se uma faca amolada embaixo da cama onde a mulher dará a luz. Desamarra-se seu cabelo e qualquer nó em seu corpo para que o parto não seja sofrido.

Proteção da casa

A ferradura é um elemento bastante tradicional de proteção. Pendure-a com as pontas voltadas para cima ou em forma de lua, porque o símbolo é associado a este astro.

Conseguir trabalho

Ingredientes:

7 chaves de ferro
7 moedas correntes e 7 antigas
200 gramas de milho de galinha


Modo de fazer:

Coloque os ingredientes em um saco de papel e misture tudo. Vá a uma estrada que suba. Num ponto tranqüilo, esfregue bem a oferenda nas mãos, pedindo à Natureza que você possa conseguir um trabalho digno. Imagine que o horizonte se abrirá à sua frente, tanto quanto a estrada onde você caminha está aberta. Deixe a mistura cair no chão e acenda uma vela comum verde, azul ou branca e ofereça aos ciganos, senhores do caminho.


Contra forças malévolas


Corte um limão em nove pedaços, em sentido longitudinal, como se fossem gomos. Durante nove dias, queime um pedaço do limão, jogando sal por cima. Ao mesmo tempo, diga a seguinte esconjuração:
“não queimo limão, nem queimo sal, queimo as energias que estiverem me fazendo mal”.


Oferenda para os antepassados

Coloque as seguintes frutas em um cesto e depois o deixe em um campo aberto, oferecendo-o para os ciganos: uva rosada (para prosperidade), maçã (amor e sabedoria), pêra (saúde) e romã (espiritualidade).

Para descarregar energias negativas e atrair positivas

Banho de folhas de pitanga, assim como o manjericão, ou de chá de camomila. Um banho de caldo de frutas também é recomendado nesses casos.

Harmonizar ambientes

Perfume, principalmente os de rosa, jasmim e canela. Os ciganos acreditam que onde há perfume não
há más influências.

A Origem

Alguns autores creditam a origem do povo cigano à Índia, em uma casta inferior chamada de Párias. Para outros seria no Oriente Médio. Expulsos de sua terra natal, eles teriam migrado para diversas partes do mundo, sem nunca estabelecer moradia fixa. Um grupo teria se deslocado para a Pérsia e Arábia, chagando à Europa pelo Cáucaso e outro se dirigido para o Egito e daí para a Europa. Chegando ao velho continente, os ciganos receberam vários nomes. Na Itália foram chamados de zingari, na França de boêmios e na Espanha, ficaram conhecidos como egiptianos, egitanos (de Egito) ou gitanos.

No Brasil, dizem que os primeiros ciganos chegaram a cerca de 500 anos, junto com os portugueses, mas que o grande contingente teria vindo mesmo com a Família Real e se estabelecido no Rio de Janeiro. “O primeiro cigano a chegar ao País foi João Torres. Aqui, ele e seu povo se dedicaram às artes, à cavalaria, à confecção de cestarias, ao artesanato com cobre e ouro, prata e couro, sem falar na adivinhação, proibida naquela época”, conta Sibyla Rudana.  

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