quinta-feira, 30 de outubro de 2025

O Compromisso Mediúnico

Ser médium na Umbanda é assumir um compromisso espiritual de elevada responsabilidade, pois a mediunidade, quando colocada a serviço da caridade, torna-se um instrumento de manifestação da Lei e do Amor Divinos. Ingressar em uma corrente mediúnica não é um simples ato de vontade pessoal, mas um chamado espiritual, uma convocação dos Orixás e Guias que veem naquele médium a possibilidade de servir como canal de auxílio aos necessitados.

Assim, ao solicitar ingresso em uma casa de Umbanda, o mínimo que se espera do médium é assiduidade, comprometimento e disciplina. A presença constante nas giras é parte essencial da sustentação vibracional do terreiro e demonstra respeito tanto à corrente mediúnica quanto às Entidades que o acompanham. Quando o médium já possui autorização espiritual para o atendimento, essa responsabilidade se amplia, pois passa a representar, de forma direta, a manifestação da caridade divina perante os consulentes.

Salvo em situações realmente inadiáveis, como problemas graves de saúde, questões familiares urgentes ou imprevistos de trabalho, não há justificativa plausível para se ausentar das giras. Cansaço, desânimo ou aborrecimentos cotidianos não devem se sobrepor ao compromisso espiritual. O médium deve estar atento, pois muitas influências negativas atuam para afastá-lo do exercício da caridade. Tais forças encontram brechas nos pensamentos vacilantes e nas emoções desarmonizadas, conduzindo-o, pouco a pouco, ao enfraquecimento da fé e ao distanciamento da Luz.

A prática da Umbanda é, acima de tudo, a prática da caridade em ação. Todo ritual, toda oferenda, toda firmeza e consagração têm como finalidade última fortalecer o médium e o terreiro para o atendimento aos consulentes. De nada adianta participar de festas, giras fechadas ou trabalhos externos se, no momento mais nobre, a gira pública, onde a caridade é exercida de forma plena,o médium não se faz presente.

A ausência de um médium repercute em toda a corrente. Cada integrante é uma peça fundamental no equilíbrio vibracional do terreiro. Mesmo o cambone, muitas vezes visto como auxiliar, exerce papel indispensável na sustentação energética do trabalho. Além disso, os consulentes criam vínculos com as entidades que se manifestam por meio de determinados médiuns. A ausência injustificada, portanto, interrompe processos de atendimento e tratamento espiritual, prejudicando não apenas o consulente, mas todo o fluxo da gira.

Problemas de convivência com outros irmãos de corrente jamais devem ser motivo de afastamento. O terreiro é, também, uma escola espiritual, e como em toda coletividade humana, haverá diferenças de pensamento e de personalidade. O médium está ali não para agradar ou ser agradado, mas para cumprir sua missão espiritual com humildade e firmeza. Fugir do convívio por melindres, vaidades ou desentendimentos é negar-se a aprender as lições de tolerância e paciência que fazem parte da evolução mediúnica.

A Umbanda não é religião de isolamento, mas de comunhão e fraternidade.

O contato com a natureza é sagrado e necessário, pois é nela que se renovam as forças dos Orixás e se purifica o campo energético do médium. Contudo, a vivência espiritual só se completa quando está aliada à prática da caridade, pois é servindo que o médium se ilumina e se fortalece.

Caso algo o incomode dentro do terreiro, o caminho adequado é o diálogo respeitoso com o dirigente espiritual. Não se deve ausentar como forma de protesto, pois o compromisso maior é com as Entidades e com os consulentes. Cada situação tem seu momento certo para ser tratada, e a gira não é o espaço para discussões pessoais. O médium deve honrar sua missão e manter-se em sintonia com seus guias, deixando que o trabalho espiritual flua com serenidade e fé.

É natural que, nos dias de gira, surjam contratempos, atrasos, aborrecimentos ou pessoas tentando desestabilizar emocionalmente o médium. Muitas dessas ocorrências são reflexos do astral negativo que tenta impedir o trabalho de caridade. Cabe ao médium manter-se vigilante, equilibrado e consciente de sua função.

A Umbanda é religião de compromisso, disciplina, responsabilidade e amor. Estar presente no terreiro é uma expressão de fidelidade à missão que o médium aceitou diante da espiritualidade. Foi o próprio médium quem solicitou participar da corrente mediúnica, portanto, deve honrar esse pedido com coerência e dedicação.

Aquele que deseja que seus caminhos sejam abençoados pelos guias e Orixás deve demonstrar gratidão através da presença e do trabalho. Não se deve trocar o sagrado pelo profano, nem substituir a gira, momento de Luz e caridade, por distrações passageiras. A maior demonstração de fé que um médium pode oferecer é a sua constância e entrega à obra espiritual.

-Pai Ricardo Vannucci -

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