Sara não é santa porque sua veneração antecede o cristianismo e pertence a um tempo em que o sagrado não era institucional. A figura chamada “Santa Sara Kali” foi absorvida pelo catolicismo popular apenas como tentativa de cristianizar um culto muito mais antigo, enraizado nas tradições orientais trazidas pelos ancestrais do povo rom. Sua cor negra, sua ligação com a água e sua celebração anual diante do mar indicam rituais de origem pré-cristã, relacionados à Deusa Mãe e às forças femininas da fertilidade, da purificação e do destino.
Entre os rom, Sara é venerada como Sara e Kali — “Sara, a Negra” —, título que remete diretamente à deusa hindu Kali, aspecto escuro e protetor da Mãe Universal. Kali é a energia que destrói o mal e liberta as almas do medo. No antigo texto hindu Durgasaptashati, o nome Sara aparece associado a Durga, outro nome da própria Kali, o que confirma a profundidade dessa linhagem espiritual. Assim, quando os povos de origem indiana migraram para o Ocidente, levaram consigo a memória dessa divindade, que sobreviveu sob novos nomes.
No sul da França, onde hoje se ergue o santuário de Saintes-Maries-de-la-Mer, já existiam templos dedicados a Ísis, Cibele e Artemis — todas manifestações da Deusa. A igreja erguida no mesmo local não apagou essas raízes: apenas as recobriu com uma lenda piedosa sobre uma serva egípcia. A “Sarah” criada pelo imaginário cristão foi, na verdade, uma tradução simbólica da antiga Kali Sara, divindade negra que o povo cigano continuou a honrar discretamente sob o olhar vigilante da Igreja.
A procissão que leva sua imagem ao mar, até hoje, é o eco de rituais hindus como o Durga Puja, nos quais a estátua da deusa é levada à água para representar o retorno ao útero cósmico. O gesto não é cristão: é shaktista, celebra a união da matéria e do espírito através do princípio feminino. O mar é o ventre da Mãe, e as flores lançadas sobre as ondas são oferendas de gratidão à força vital que tudo cria e renova.
Sara, portanto, não precisa ser canonizada. Sua santidade não depende de decreto eclesiástico, pois sua essência é divina por natureza. Ela é a ponte viva entre a Índia e a Europa, entre o visível e o invisível. Sobreviveu à perseguição, à conversão forçada e ao esquecimento, mantendo-se como protetora dos rom e de todos os que buscam refúgio na compaixão da Mãe Negra. Sara existe porque é lembrança ancestral e presença espiritual — e nenhuma instituição humana tem poder para negar sua divindade.

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