quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Saudações e Gestuais

Tenho percebido em vários terreiros (que visito) que a grande maioria das pessoas desconhecem o significado de algumas saudações, de certos gestuais, de certos fundamentos...

Por exemplo:
Por que em algumas situações tocamos o solo do terreiro com os dedos? 
Porque tocamos o solo com nossa fronte? 
Porque saudamos os atabaques (geralmente) tocando o chão à sua frente? 
O que significa Okê Arô, Atotô...? 
Por que giramos em torno de nós mesmos antes de “bater a cabeça”? 
Esses são apenas alguns exemplos de comportamento ritual que vejo as pessoas ter sem saber o significado... Vamos utilizar esse tópico para aclarar essas questões? 

“ Na minha casa quando tocamos o solo seja na frente do atabaque ou quando entramos no congá seja o que for cruzamos o solo fazendo o “sinal da cruz” no chão. Mas na verdade com esse gesto, estamos saudando o alto, o embaixo a direita e a esquerda. 

“ O toque no chão com as pontas dos dedos, independente se ao entrar no terreiro ou na frente dos atabaques, tem a finalidade de saudar o “chão”, de onde vem e onde está firmada a força do (s) Orixá (s) regente da Casa, pedindo licença e permissão (antes de entrar) e dos Atabaques (frente a estes) pedindo seu auxílio em nossos trabalhos”. 

Destaco uma parte que acho fundamental: “O “chão”, de onde vem e onde está firmada a força do (s) Orixá (s) regentes da Casa...” 

Tocar o Chão 

Acreditavam os nagôs que existiam nove espaços (planos) no além. Entre os quatro superiores e os quatro inferiores, havia um plano intermediário que se localizava (exatamente) no espaço ocupado por nosso planeta; esse seria o plano astral terrestre. Era através desse espaço que chegavam a Terra os Orixás e Ancestrais vincos dos vários outros planos. 

Surgiam, pois, para os nagôs, os Orixás de dentro da Terra. Assim, quando desejam chamar os Orixás, os nagôs tocavam três vezes o solo (após o nome do Orixá ser pronunciado). 

O solo diante dos tambores também era tocado (antes ou depois de tocarem com os dedos o próprio atabaque), afinal, quem chamava (através do som) os orixás eram os tambores. 

O solo era sempre tocado três vezes; o três representa na cultura nagô ação, movimento, expansão... Tocar o solo três vezes era o gestual que significava o “assim seja”, o cumpra-se... Então quando, por exemplo, o nome Ogum pronunciado, todos tocavam três vezes o solo; “assim seja”, que Ogum venha até nós... 

No Brasil, os africanos, para consagrar o solo, para transformar o terreiro em uma pequena África, enterravam relíquias trazidas (da África) ... Transformando (ritualmente) o solo brasileiro em solo africano (“chão” dos seus orixás). 

Hoje, convém lembrar, outros significados foram agregados a esses costumes. 

Existe um mito que diz que Ogum, após ter se arrependido de um ato de maldade com relação às pessoas do seu reino, ele fincou sua espada do chão (terra) e desapareceu por dentro dela, assim tornando-se Orixá. 

Provavelmente, existem outros mitos que expressam a identificação dos Orixás em relação ao solo (chão).

Assim como os orixás, de acordo com os mitos, surgiam do solo, por ele retomavam aos outros planos do além (oruns). 

Tocar o chão, outra visão 

Tocar o chão três vezes também tem um significado de saudar preto-velhos, crianças e caboclos (orientação de Pai Zélio de Moraes) com o dedo indicador bate-se três vezes no chão, ou seja simbolismo do triângulo, pedindo licença a estas entidades para trabalhar.

Para nossa casa também aprendemos que primeiro se bate três vezes o dedo médio no chão (no altar, nos atabaques e no ponto de força central (Ilê) e depois três toques com o mesmo dedo na cabeça (fronte, em cima da orelha e na nuca) significando que você está se entregando de corpo, mente e alma, para a Umbanda, simbolizada em caboclos, pretos e crianças. A explicação do Jorge sobre Ori tem tudo a ver com o que significa para nossa casa este gesto, que graças a ele entendi melhor. 

Existe na Umbanda, uma saudação a todos os Orixás que consiste em deitar de bruços e tocar com a cabeça no chão. Essa saudação chama-se Dobalé. 

Com relação à Exú não conheço nenhum tipo de saudação específica, sei que nos “candomblés” se faz o Padê que é uma obrigação a Exú realizada antes de qualquer cerimônia e que seu “toque”, cântico ritual é o Exó.

O braço tocando os ombros, qual o significado? 

Creio que o toque nos ombros (direito e esquerdo) decorra de uma estrutura polar na cultura religiosa nagô: 

Masculino/Feminino, Positivo/Negativo, Direita/Esquerda. 

Em muitos mitos nagôs os orixás e ancestrais masculinos sempre aparecem relacionados ao lado direito e os femininos ao lado esquerdo. Acredito por essa razão se toque o lado direito e esquerdo. 

Em tempo: além de orixás e ancestrais, certas energias se relacionam com lado direito e outras com o esquerdo. 

O Ponto Riscado é algo característico da entidade ou orixá que está se manifestando...

Os pontos riscados da entidades são desenhos formados a partir de um conjunto de símbolos magísticos que são riscados com a pemba (espécie de giz) geralmente é riscado na cor da entidade. Quando o ponto é riscado ele serve para identificar a entidade que ali baixou, as combinações desses desenhos exprimem muito a qualidade, falange e tipo dessa entidade ou orixá. Muitos pontos são riscados pelas entidades e orixás afim de ser usado como ponto de energia em alguns trabalhos que estão sendo efetuados dentro do terreiro (durante a sessão). Eles poderão ser riscados no chão ou tábuas. 

Cada entidade é única, cada deverá ter o seu ponto magístico (riscado), é claro que podem acontecer de haver semelhança, mas no geral são quase que individuais. 

O Ponto cantado também é um cântico que caracteriza a entidade ou o orixá que está ali atuando. Muitas entidades descem quando cantam seu ponto ritual. É aquele ponto específico, que o Ogan toca, que faz a conexão entre o médium e a entidade, acontecendo assim a manifestação. 

As Ervas realmente as ervas com “leite” ou algum tipo de látex, costuma ter folhas urticantes. 

Mas na liturgia, as ervas são consideradas quentes ou frias mais pelo efeito que provocam quando num banho. Ou sejam, são utilizadas para acalmar ou animar o cidadão. 

Por exemplo: o tapete de Oxalá é uma erva fria de Oxalá, assim atua de modo a “acalmar” situações de conflito interno, problemas emocionais. Coisas de Oxalá. O elevante é uma erva quente de Oxalá, portanto estimula o raciocínio, a determinação. 

Xangô: na tradição que professo, um Orixá ser quente ou frio tem a ver com o fundamento dele, ou seja, as quais forças está interligado. Seria como com quem um falangeiro de determinado Orixá está cruzado. Se o fundamento for um outro orixá “endendezado”, como Omulu ou Iansã, o “santo é quente”. 

Um orixá mais “encanjicado”, tal qual Oxalá, deixa o santo mais frio.

Na verdade são outras formas de ver a polarização do todo, no mais bom estilo YIN/YANG afro. 

O significado dos Brados dos Orixás 

Yemanjá – Odô ia!

Odô = rio

Ia (iyá) = mãe, conclusão mãe do rio. 

Vale lembrar que Yemanjá na África era considerada orixá dos rios, especialmente do rio Ogum, ao ser trazida para o Brasil foi considerada Senhora do Mar. 

Oxalá – Epá Babá! 

Epe = exclamação de surpresa, terror (como de Iansã)

Baba = Pai, seria uma surpresa ao ver o Pai (saudar o Pai). Não só para Oxalá se saudava assim, isso dizia-se para alguns orixás e eguns em cerimônias na África. 

Exú - Laroiê (laróyè) é uma palavra iorubá que significa “pessoa muito falante”, comunicativa. “Mojuba” é uma saudação, “meus respeitos”. 

Essa saudação para Exú (da cultura nagô), o mensageiro, o que comunica aos homens a vontade dos orixás e, a estes, leva o pedido dos homens. 

Laroiê, Exú! Exú e mo Jubá! 

Laroiê, Exú! = Mensageiro, Exú!

Exú e mo Jubá! = Exú a vós meus respeitos! 

Ogum - O significado da saudação a Ogum = Pataki seria uma palavra Ioruba que significa importante, principal. 

Orí – cabeça. 

Ogum Iê! Patakori Ogum! 

Ogum Iê (Ògún yè) significa (em ioruba), segundo alguns, Ogum sobreviveu ou, ainda, Ogum é forte. 

Eu prefiro a tradução (mais comum) “Olá Ogum!”, com o sentido de “Salve Ogum”. 

Patakori vem de pataki (principal, importante, supremo) + ori (cabeça). 

Isso, porque nos mitos Ogum sempre vinha à frente dos orixás abrindo caminho, direcionando, logo, Ogum é o “O Cabeça Principal”. 

Abaluaiê – Atotô é reverência, saudação! 

Iansã – Epa hei! 

Epa é uma exclamação de surpresa ou espanto.

hei é como se dizer olá, oi. 

Portanto quando saudamos Iansã é como dizer para ela com ar de surpresa um oi, um olá, tipo Oláááááááááá. 

No caso de Oxalá, Epe Babá! 

Seria a mesma surpresa em recebê-lo, mas proferindo o Babá (que significa Pai). Muito bom isso não é, saber o que falamos em nossas saudações, saber como nos referirmos aos nossos queridos Orixás. 

Xangô – Ká wóó kA biyè si!

A tradução seria segundo Olga Cacciatore: “Permita-nos olhar para sua Alteza”.

Já para Pierre Verger: “ Venham ver (e admirar) o Rei”.

Se tem grafado aportuguesadamente “Caô Cabieci” ou Cauô Cabieci”.

Muitas vezes se acrescenta a palavra Ilê, que significa casa; Cabieci + ilê = cabiecilê.

Então, Caô Cabiecilê, seria: Venha ver (admirar, saudar) o Rei (a Alteza) da Casa.

Oxum – Ora iêiê ô! Deriva do ioruba “OOre yèye” que significa “benevolente mãezinha”. 

Ora iêiê ô, seria “Salve benevolente mãezinha! 

Em muitas casas se pronuncia Aiêiê ô!, outra corruptela das saudação original.

Nanã – Salubá Nanã!

Sálù ba Nàná” = Nos refugiaremos com Nanã.

Crianças – A saudação as crianças na Umbanda, tem origem na saudação ao “orixá” protetor dos gêmeos na África. 

Oni Ibeijada, Oni Ibejá ou Oni Ibeji, são saudações que derivam de “Oni Ibéji”, que significa: 

“Senhor dos Gêmeos”.

Oxumarê – Arô Boboi!

Arô = títulode honra (pessoa importante.

Bó = suportar, bò = retornar, ui = voltar (dar a volta).

Logo Oxumarê, cuja representação é o arco-íris, é a pessoa importante que suporta o céu, retorna a terra e volta ao céu. 

Vai e vem, mobilidade, continuação, equilíbrio, alternância de ciclos, opostos complementares, isso tudo é Oxumarê. 

Oxumarê é raríssimo na Umbanda (e até mesmo no Candomblé).

Em termos astrológicos, Oxumarê corresponderia ao signo de libra. 

Obaluaiê na saudação à Exú. 

Um dos títulos de Obaluaiê é “Babá Igbonã”, ou seja, Pai da quentura. Obaluaiê está ligado, segundo mitos, ao sol e ao magma. Daí não é de se estranhar que, ao se louvar Exú em seu aspecto fogo (Inã), se louve também o Pai da Quentura. 

Com relação a saudar os atabaques aprendi que ali se saúda Ilú. Responsável pelos atabaques, que facilita o desprendimento mental do médium e facilita a conexão médium-entidade. 

Saúda-se o solo, como ato de respeito ao dono do chão e como forma de se pedir licença, e na mesma forma, por respeito, não se dá as costas ao sair. 

Girar em torno de si. 

Acredito que o fato de girarmos em torno de nós mesmos representa uma volta ao passado. 

Quando entramos no terreiro e iremos saudar o representante, dirigente, ou até mesmo as entidades e orixás, giramos em sentido anti-horário que representa a volta as raízes, antepassados, pois ali iremos voltar no passado para cultuar ancestrais... 

Até mesmo quando uma entidade ou orixá vem a terra e giram, eles giram em sentido anti-horário que caracteriza o que falei acima, à volta ao passado. 

Para acrescentar o excelente texto:

Giramos em torno de nós simbolizando a união de todos os mundos (dos homens, dos antepassados, dos orixás). 

O sentido anti-horário, além da volta, representa a busca de algo que está além do tempo (do plano físico). 

Estamos, pois, diante do conga (por exemplo), rogando à Olorum (Zambi, Deus) que permita que (naquele momento) nosso mundo, o mundo dos antepassados e o dos orixás sejam um só. Estamos unindo, ritualmente, passado e presente, o sagrado e o profano. 

O sentido de volta no tempo (na verdade, unidade com o mundo dos orixás e antepassados), decorre de (na crença nagô) no início, após a criação do planeta, os orixás terem vivido entre os homens (nossos antepassados). Assim, voltar àquele tempo é, na verdade, promover a unidade entre os mundos. 

Giramos, antes das saudações, diante do congá, do Zelador, atabaque. O congá representa o mundo dos orixás (ao qual queremos nos unir), o Zelador é o representante dos orixás, o atabaque o instrumento que “chama os orixás”, que estimula a nossa união (transe) com eles. 

- A rotação tem a finalidade de buscar harmonia e equilíbrio antes de bater cabeça; 

- Batemos a cabeça no chão em sinal de respeito e obediência aos Orixás, pois simboliza que nossa cabeça, que nos comanda e nos rege, está se subordinando ao poder dos Orixás aos quais estamos reverenciando ao tocá-la no chão, sejam os Orixás do Zelador ou do Gongá. 

“Como curiosidade, em diversas culturas, sejam ocidentais ou orientais, baixar a cabeça perante alguém ou alguma coisa significa que estamos submissos e obedientes a esta pessoa ou coisa, pois ao baixarmos a cabeça ficamos totalmente indefesos contra um ataque de quem está a nossa frente”. 

Outra visão da rotação... 

Transcrevemos aqui outra explicação para a rotação, diferente da dada pela Priscila e Jorge, que tem origem na cultura Africana. 

Gostaria de ressaltar que não estou concordando ou discordando de qualquer das duas, pois a explicação africana tem base em mitos e tradições, e esta que divulgarei tem a postura mais “cientifica”, sendo que acho importante em um tópico de estudos que todas as visões sejam expostas para que todos possam comparar e analisar, adotando a que for mais convincente para si. 

Fonte: Jornal de Umbanda Sagrada 

Banhos Ritualísticos e Chacras – Rodrigo Queiroz

Polos Energéticos: 

Além, dos aspectos já mencionados, é importante, também entender a anatomia espiritual, sob o aspecto dos polos energéticos. Todo corpo energético é igual a uma pilha elétrica, onde temos, os polos positivo e negativo, coexistindo para manter o equilíbrio neutro. 

O lado direito do corpo, a fronte e a linha média do peito e do ventre tem polaridade positiva, assim, a parte frontal do corpo, tem o predomínio do polo positivo. 

O lado esquerdo, a nuca e a coluna vertebral, têm a polaridade negativa, assim a maior parte das costas, tem a predominância da polaridade negativa. 

Os polos negativos, não têm efeito prejudicial no organismo, pois não tem relação com as energias negativas, estas sim, são prejudiciais ao organismo dos seres. 

Se notarmos, os chacras têm, pela frente, a polaridade positiva e por trás a negativa. 

Se, num passe, colocarmos a mão esquerda (-) nas costas (-) e a direita (+) na parte frontal (+), ativamos as energias, pois há excitação, aquecimento, força e sono magnético. Se efetuarmos o passe com as mãos invertidas, ou seja, à direita (+) nas costas (-) e a esquerda (-) na frente (+), criamos um desbloqueio no fluxo energético, acalmando os chacras, causando a calma e o descongestionamento energético. 

Cada um destes métodos tem a sua eficiência, ora ativando, ora acalmando os centros de forças.

Rotação Magnética dos Corpos: 

Além da polaridade mencionada, há também, a rotação magnética dos corpos. Baseado no mesmo princípio químico, em que os átomos têm um dos seus elementos, o elétron, gravitando magneticamente, em volta do núcleo atômico (prótons e nêutrons), produzindo a chamada rotação magnética, tem nos corpos astrais, está rotação. O sentido da rotação difere entre um ser encarnado num corpo masculino de um ser encarnado num corpo feminino. 

Temos assim a Rotação em Sentido Horário para os homens e Rotação em sentido anti-horário para as mulheres.

Esta rotação é importante, pois determina em que sentido magnético vibra um corpo astral. 

* Com relação à rotação magnética dos corpos, existem várias correntes de pensamento dentro do esoterismo; uns admitem a teoria de um sentido de rotação para os homens e outro para as mulheres; para outros essa é a mais aceita, admitem a existência de duas correntes magnéticas (em sentidos opostos) tanto nos homens quanto nas mulheres... Uma das correntes (de rotação) magnética teria a capacidade de atrair determinadas forças cósmicas, a outra de repeli-las. Quais forças seriam atraídas e quais seriam repelidas, isso dependeria das vibrações que emitimos, teríamos que falar das energias absorvidas pelos chacras e das energias por eles expelidas (após serem processadas) ... Como aas energias liberadas pelos chacras são, digamos tingidas (influenciadas) por nosso mental e emocional, certamente o fato de sermos homens ou mulheres, além de outros fatores, influiria nas energias que atraímos ou repelimos... 

Em termos de fundamentos (dentro da cultura afro-brasileira), certamente, os aspectos acima mencionados influiriam, por exemplo, na capacidade da mulher (segundo a tradição) de servir como canal para a manifestação dos orixás e os homens não (antigamente homem não era feito iaô). 

Lembremos que anatômica e psicologicamente a mulher foi feita para receber, para ser penetrada... 

Bem... o assunto vai longe... 

Para concluir: existem, muitas vezes, relações entre fundamentos da religiosidade afro-brasileira e de outras correntes.... No tocante à roda de dança o sentido (pelo menos o principal) é o de retorno ao início da criação e de conexão com os orixás. 

Acho que o que foi levantado sobre homens e mulheres, em termos de energia (e polaridade), pode ao menos nos auxiliar a encaminhar melhor o assunto... 

* Eu acredito sim que haja correlação e que muitas tradições existam com base em algum fator desconhecido pelas pessoas encarnadas, transmitidos mentalmente / espiritualmente pelos desencarnados e simplesmente aceitos, não questionados quando na época de sua adoção pela cultura do povo, por falta de conhecimento, digamos, “técnico”, das pessoas que os adotaram. 

Pensando bem, acho que isto acontece até hoje, quando Zeladores recebem mensagens do Astral para adicionarem preceitos “A” ou “B” em suas doutrinas, preceitos estes que por repetição em outros Terreiros, implantados por outros Médiuns /Guias, acabam sendo aceitos e praticados sem base em conhecimento anterior, ou amparo científico dos que os utilizam. 

Quanto ao sentido de rotação, já vi diferentes orientações, não prevalecendo o anti-horário como reza a tradição, segundo seu relato. 

Como já disse, estou mais para espectador e aguardarei outras opiniões, suas ou de outros que queiram opinar também. 

Polos Energéticos: 

“Além dos aspectos já mencionados, é importante, também entender a anatomia espiritual, sob o aspecto dos pólos energéticos. Todo corpo energético é igual a uma pilha elétrica, onde temos, os pólos positivo e negativo, coexistindo para manter o equilíbrio neutro”.

Masculino / Feminino, Positivo / Negativo, direita / Esquerda... a leitura dos mitos africanos nos deixa bem evidente a importância do conceito de polaridade cósmica, e em todos os níveis, na cultura nagô. 

1. No tópico que tratamos dos signos contidos no Ori (cabeça) podemos perceber isso... 

2. A criação do universo se dá a partir da bipolarização de Olorum (o Deus único) ... o Um se torna dois (Oxalá/Odudua) e gera o três (exu), a diversidade, o elemento criado. 

Ainda no final do mito da criação, Oxalá (masculino, positivo, direita) e Odudua (feminino, negativo, esquerdo), após muita luta, acabaram se unindo (manter o equilíbrio). 

Só para acrescentar.

Rodas de Dança 

As rodas de dança em homenagem aos orixás, comuns em muitos terreiros, também seguem o sentido anti-horário, pelas razões anteriormente postadas. 

Evidentemente, os significados foram enriquecidos devido ao contato com a cultura indígena e européia. 

E o gesto em que se toca a testa com uma mão e a nuca com a outra depois a nuca e a testa invertendo as mãos? 

Antes de qualquer coisa é necessário fazermos algumas colocações sobre Ori (A CABEÇA); para os africanos Ori era a parte mais importante do corpo, era sagrada. Ori era composta por ORI ODE, a cabeça física; por ORI INU, a cabeça interior, a mente, a personalidade, o Eu inferior, por ORI ORUN, a consciência (espírito), o Eu superior. 

Antes de encarnar cada Ori Orun tinha uma Ori Inu moldada no além; recebia então o seu odu (signo regente da vida), a força ancestral (o legado ancestral) e seu orixá (s).

Cada elemento mencionado tem representação ritual: o ODU está relacionado com a TESTA (OJU-ORI), a parte da frente, o nascente, o futuro a ser desenvolvido; o legado ancestral está relacionado com a parte de trás (IKOKO ORI), o poente; o orixá masculino com o lado direirto da cabeça (apá otun); o orixá feminino com o lado esquerdo da cabeça (apá osi). 

Durante alguns ritos a cabeça era tocada para saudar e invocar as forças nela contidas. O gestual que mencionaste é um deles, na verdade uma variação (menos complexa). 

A Umbanda, que na herdou todos os preceitos africanos, não produz, pois, em sua ritualística todos eles. Creio mesmo que, na maioria dos candomblés, muito desses fundamentos tenha se perdido e são reproduzidos (mecanicamente) parcialmente (sem conhecimento de seus conteúdos). 

O que é mais comum na Umbanda é tocar-se a cabeça diante dos orixás ou quando o seu nome é mencionado e diante do congá. 

Assim o gestual mais comum é tocar-se a parte frontal da cabeça (testa) e um de seus lados (podendo tocar-se também a parte superior). 

Se temos Ogum como Pai de Cabeça, por exemplo, um orixá masculino, devemos tocar a testa e o lado direito da cabeça quando o nome desse orixá é pronunciado... Isso significa: “que meu caminho seja iluminado (conduzido) por Ogum”. 

Se temos Iemanjá, ou qualquer outro orixá feminino, como regente principal, devemos tocar a testa e o lado esquerdo da cabeça. 

Diante do congá, onde estão representados tanto o Pai quanto a Mãe (independente de quem seja o principal), devemos tocar (com as duas mãos) a testa e os dois lados da cabeça. 

Ori é tão importante que, Ori Orum, é considerada como um Orixá e sua vontade deve ser respeitada antes da vontade dos demais Orixás e Ancestrais (Livre-arbítrio).

O tão falado rito do Bori que, erroneamente, tem sido traduzido como “dar de comer a cabeça”, significa “adorar a cabeça”. 

O lado direito (Otun) e esquerdo (Osi) da cabeça estão ligados aos aspectos masculinos (Yang) e femininos (Yin) do Universo, inclusive os orixás. Neste caso, portanto, o lado direito é de nossos orixás masculinos (seja o primeiro ou segundo) e o esquerdo de nossos orixás femininos. 

O significado de Otun e Osi, no caso presente, é diferente do que tratamos antes. 

Quando você toca o lado direito da cabeça é para saudar o seu orixá masculino, quando você toca o esquerdo, seu orixá feminino. 

Umbanda é considerada a Religião dos Pés descalços. 

Existem três pontos que sigo e vou levantar para posterior analise de vocês: 

1- Nós costumamos tirar os calçados em respeito ao solo do terreiro, pois seria como se estivéssemos trazendo sujeira da rua para dentro de nossas casas. 

2- É também uma forma de representar a humildade e simplicidade do rito Umbandista. 

3- Além de sermos comparados a para-choques naturais, e ao recebermos qualquer energia mais forte, automaticamente ela se dissipa no solo. 

Embora eu tenha visto alguns terreiros nos quais é permitido usar calçados eu sigo desta forma que aprendi, e passo para todos que me procuram, seria na minha opinião uma forma de garantir a segurança do médium para que não acumule e leve determinadas energias consigo. 

4. Força ancestral (e devemos incluir a dos orixás e demais entidades), segundo a cultura africana, chega-nos através do solo; o espaço de passagem do além (Orun) para nosso mundo (Aiyê) se exatamente do interior da terra para a superfície. 

5. Pela linha africana, cabe ressaltar, que a origem desse costume, nos cultos de origem afro-brasileira, é outra; os “pés descalços” era um símbolo da condição de escravo, de coisa; lembremos que o escravo não era considerado um cidadão, ele estava na mesma categoria do gado bovino, por exemplo. 

Quando liberto a primeira medida do negro (quando fosse possível) era comprar sapatos, símbolo de sua liberdade e de certa forma, inclusão na sociedade formal. O significado da “conquista” dos sapatos era tão profundo que, muitas vezes, eles eram colocados em lugar de destaque na casa (para que todos vissem). 

Ao chegar no terreiro, contudo, transformado magicamente em solo africano, os sapatos, símbolo para o negro de valores da sociedade branca, eram deixados do lado de fora. Eles estavam (magicamente) em África e não mais no Brasil. 

No solo africano (dos terreiros) eles retomavam (magicamente) à sua condição de guerreiros sacerdotes, príncipes, caçadores. 















Nenhum comentário:

Postar um comentário