Ao final das giras, é natural que alguns médiuns, não a totalidade, após o processo de desincorporação, permaneçam por breves instantes em um estado de desorientação, torpor ou semiconsciência. Tal condição, muitas vezes interpretada de forma equivocada como a permanência da entidade manifestada, na verdade revela um fenômeno mediúnico conhecido como estado residual de transe, no qual o médium já se encontra desligado do espírito comunicante, porém ainda não recompôs plenamente sua consciência no corpo físico.
Sob o prisma da Umbanda, compreende-se que a mediunidade não se encerra no simples ato da incorporação ou desincorporação, mas exige o completo reencaixe dos campos conscienciais, mentais e sensoriais do médium.
Quando esse retorno não ocorre de maneira espontânea, o médium pode permanecer momentaneamente “suspenso" entre os estados vibratórios, apresentando lentidão de respostas, olhar distante ou dificuldade de coordenação.
Sopro nos ouvidos, portanto, não constitui prática ritualística aleatória, tampouco simbolismo vazio. Trata-se de um recurso técnico-mediúnico, fundamentado na estimulação física associada ao campo energético.
Ao soprar suavemente nos ouvidos direito e esquerdo, provoca-se um estímulo sensorial direto que atua como gatilho de reancoragem consciencial, auxiliando o médium a romper o estado intermediário de transe e a reassumir plenamente o comando do corpo e da mente.
Esse procedimento pode ser realizado por dirigentes espirituais, cambones, auxiliares da corrente ou guias incorporados, sempre de forma respeitosa, consciente e responsável.
Seu objetivo é exclusivamente o bem-estar do médium e o equilíbrio da corrente, reafirmando um dos pilares da Umbanda Sagrada: a mediunidade deve ser conduzida com conhecimento, disciplina e fundamento, jamais sustentada por improvisações, misticismos excessivos ou interpretações superficiais.
Assim, o sopro no ouvido revela-se um ato de auxílio fraterno, técnico e doutrinário, que evidência a maturidade espiritual da corrente e o compromisso da Umbanda com práticas conscientes, seguras e profundamente alicerçadas em seus princípios espirituais.
-Pai Ricardo Vannucci-

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