segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Transe e Incorporação

Transe - Incorporação 

O transe tem um papel fundamental nos trabalhos de Umbanda. O transe é um estado mental no qual o ego do médium diminui sua capacidade de decisões próprias, assumindo o comando de sua mente e uma parte de seu inconsciente, que entra em sintonia com as vibrações do espaço cósmico. 

Quando uma pessoa está em vigília, seu cérebro emite ondas betas; quando está dormindo, a emissão é de ondas deltas. Entre as emissões de ondas cerebrais betas e deltas situa-se o estado de incorporação. As ondas mentais entre o estado alfa e o estado delta, ou seja, entre o transe e o estar dormindo, são chamadas de tetas. Nessa faixa de ondas atuam os obsessores. 

No estado alfa, o médium acredita que está incorporado com uma entidade, mas, na verdade, ele está em sintonia mental com essa entidade, num processo telepático. Seu cérebro emite ondas que vibram na terceira e na quarta dimensões. Daí a origem do nome médium, que caracteriza a pessoa que pode mediar entre duas dimensões. Assim o médium projeta a sua mente no espaço cósmico e capta as vibrações da entidade. Na realidade, não há uma incorporação, mas um prolongamento das vibrações de sua mente. 

Todas as pessoas são médiuns. A diferença está no grau de mediunidade, pois, quando elas dormem, entram e saem da quarta dimensão naturalmente. 

Há uma grande polêmica sobre se o médium fica inconsciente ou não durante a incorporação. Muitos médiuns alegam à inconsciência, para não inibir as pessoas que consultam suas entidades, embora permaneçam totalmente conscientes durante as manifestações mediúnicas. 

Muitas vezes o médium é sugestionado pelo dirigente do terreiro, que faz um amaci (colocação de determinadas ervas em cima da cabeça do médium, por algum tempo) sobre sua cabeça convencendo-o que após esta cerimônia ele ficará atuando de forma inconsciente. Na realidade, ele continuará consciente; porém ao despertar do estado de transe, não se lembrará de nada que aconteceu durante a incorporação. Daí ele acreditar que passou a ser um médium inconsciente. Outros, porém, fazendo o mesmo amaci, não conseguem auto-sugestionar-se para ficarem inconscientes. Mas é importante que o médium saiba que sua mente passou a dar um comando ao cérebro para esquecer tudo, quando despertar. Mas tudo o que ele fez foi absolutamente consciente. O fato de lembrar ou não do que aconteceu durante a incorporação é muito semelhante ao processo de sonhar: poderemos lembrar ou não dos sonhos que tivemos durante a noite. 

È comum um médium alegar que tomou esta ou aquela atitude sem saber o que fazia, pois estava incorporado. Na verdade, ele tomaria a mesma atitude se estivesse desperto. O transe apenas libera a vigilância do superego. 

A própria entidade espiritual que está atuando no médium pode comandá-lo para que fique inconsciente ao despertar. Mas a maioria dos médiuns trabalha sem perder a consciência durante a incorporação, percebendo tudo o que está acontecendo. Os médiuns que trabalham de forma consciente podem não realizar grandes proezas, pois inibem muitas mensagens, por insegurança natural ou por excesso de zelo; porém, dificilmente serão obsediados. 

Muitos médiuns sentem grande insegurança por trabalharem no terreiro, incorporados, de forma consciente. Ficam sem saber se são eles mesmos ou as entidades que estão atuando. Chegam, inclusive, a perder o ritmo do trabalho, prejudicando o desenvolvimento da mediunidade. 

Os médiuns precisam saber que a mente pode trabalhar em estado alfa, no nível anímico ou mediúnico, sem prejuízo dos trabalhos de caridade. 

No nível anímico, sua mente, ao alterar a frequência normal, entra em estado alfa e busca informações no inconsciente coletivo, nas suas experiências de vidas passadas ou da vida presente, na mente das pessoas que estão ou não participando da sessão espiritual, podendo ainda vasculhar todo o presente, o passado ou o futuro. 

No nível mediúnico, sua mente, ao alterar a frequência normal, entra em estado alfa e sintoniza a frequências vibratória de uma entidade espiritual, passando a receber informações, dela ou de outros espíritos, sem a participação total da mente. 

Assim, a importância de trabalhar em estado anímico ou mediúnico está ligada diretamente aos resultados obtidos no trabalho realizado. Muitas vezes, os meios justificam o fim. 

Nos primeiros instantes em que um médium começa a desenvolver sua mediunidade, ele trabalha mais em estado anímico. Logo em seguida, após a confirmação de seu mentor espiritual, seus trabalhos mediúnicos ficam mesclados: uma é parte anímica, a outra, mediúnica. 

No transe, o médium não pode perder nunca sua parte anímica, pois correrá o risco de transformar o processo de incorporação numa obsessão. 

Na obsessão o médium perde o controle da manifestação mediúnica, despertando todo o seu inconsciente e ficando à mercê do obsessor. Os fenômenos passam do campo da paranormalidade para o da anormalidade. 

É muito importante o médium preservar suas partes anímicas, intercalando-a com a mediúnica, pois uma das razões da mediunidade é justamente desenvolver o médium, aperfeiçoando-o para futuras missões espirituais. Se ele só trabalhasse em estado mediúnico, onde ficaria sua oportunidade de evoluir? 

Sempre tive dificuldade para determinar o percentual de atuação de um guia na mente de seu aparelho (médium). Pois esse percentual irá variar entre as informações já contidas na mente do médium, sua capacidade paranormal ou mesmo sua evolução espiritual. Assim, um médium poderá trabalhar, durante uma sessão espírita, variando os estados anímicos e mediúnicos, sem nenhuma perda a qualidade do trabalho. 

Tanto no estado anímico como no mediúnico o médium pode ficar letargizado, mantendo os mesmos estereótipos de seus mentores, ou seja, com a posição habitual de cada entidade. Um médium em estado de letargia poderá ficar sem sentir fome, frio, dor, etc., durante toda a incorporação. 

Infelizmente, existe a mistificação, que causa os mesmos prejuízos que um trabalho mediúnico feito por espíritos atrasados ou por médiuns que atuam em estado anímico com fins nocivos. No processo de mistificação, a pessoa simula que está incorporada para tirar algum tipo de proveito. Isso geralmente acontece com trabalhos pagos. 

Nos casos de mistificação, o mistificador tem total consciência de que não existe nenhum espírito atuando em sua mente, ele simula de propósito. No animismo, em estado de plena consciência, o médium fica em dúvida sobre se é a sua própria mente ou o espírito que está dando mensagem. Mas, como seu propósito é a caridade, essa dúvida fica em segundo plano. Nos casos de mediunidade inconsciente, o médium irá atuar tanto anímica como mediunicamente. Mas, como ao desincorporar ele perde a consciência, não terá dúvidas sobre se foi sua mente ou não que realizou o trabalho. 

Da mesma forma que um médium pode atuar mediunicamente com entidades atrasadas, fazendo o mal, se ele tiver uma índole má, poderá em estado anímico, usar sua própria negatividade para prejudicar uma pessoa. 

Muitas vezes é preferível um médium trabalhando conscientemente em estado anímico, utilizando a força de sua mente para ajudar o próximo, do que um médium incorporado com entidades negativas, sem consciência de sua incorporação, mas prejudicando o próximo. 

Algumas pessoas insistem em afirmar que só existe o estado anímico, que o estado mediúnico é mero fruto da imaginação dos espíritas. Obviamente, essas pessoas nunca passaram por uma experiência mediúnica, que é indescritível. Só quem a conhece poderá falar sobre essa maravilha com que o mundo espiritual nos brinda. 

Certa vez, no Maranhão, um amigo perguntou-me como eu conseguia conciliar a parapsicologia e a Umbanda, pois a primeira explicar todos os fenômenos paranormais como produtos exclusivos da mente e a segunda como produtos dos espíritos. Enquanto pensava numa forma para lhe responder, aproximou-se de mim o meu guia espiritual e contou-me a seguinte história: “Um cientista resolveu um dia fazer uma experiência sobre a convicção. Pegou dois meninos para criar, no momento em que haviam acabado de nascer. Um deles, foi criado num quarto sem janelas, de onde só saía durante a noite. Com o outro menino ele fez o contrário. Ficava em outro quarto e saía apenas durante o dia. Quando os dois ficaram adultos, o cientista provocou um encontro entre ambos em outro quarto e ficou escutando o diálogo. 

Um dos rapazes tomou a palavra e falou: ‘Adoro passear entre as árvores, ouvindo os pássaros cantando, sentindo o calor do sol, com sua cor avermelhada, destacando-se no céu azul, onde nuvens brancas brincam de criar as formas mais bizarras. Adoro sentir o perfume variado das flores, com sus colorações de mil matizes. Sinto imensa alegria em olhar o verde das matas fazendo contraste com o marrom das montanhas. ’ 

O outro rapaz, que ouviu tudo atentamente, respondeu: ‘Onde fica esse lugar maravilhoso? Conheço apenas a escuridão, que só melhora quando no céu surge a lua, com sua claridade, assim mesmo durante um certo tempo. Além do preto e do branco não conheço outra cor. Não sei o que são as fores e escuto apenas o silêncio da noite. Já senti um perfume, mas apenas um aroma. ’ 

A discussão ficou muito violenta quando ele ficou sabendo, pelo outro rapaz, que esse mundo ficava logo ali, atrás da porta. Isso era impossível, pois durante anos ele também havia passado por aquela mesma porta e não tinha visto absolutamente nada do que o outro lhe contara. 

Finalmente o cientista deu seu trabalho por encerrado e mostrou a ambos que existia o dia no mesmo lugar que existia a noite. Esclareceu que, dentro d realidade de cada um, suas convicções eram exatas. A verdade não era absoluta. Não estava errado o que conhecia somente o dia, pois estava fazendo um a descrição exata do que vira, como não estava errado o outro, que só conhecia a noite. “Felizes são as pessoas que possuem a oportunidade de conhecer o dia e a noite. ” 

Repeti ao amigo maranhense a história que havia acabado de ouvir, esclarecendo que aqueles que insistiam em ver a Umbanda só fenômenos espíritas cometiam o mesmo engano dos que insistiam somente na existência dos poderes mentais. Eles estavam certos apenas dentro de suas realidades. No meu caso, com a ajuda de meus mentores espirituais, eu havia conhecido o dia e a noite, sabendo que um começava quando o outro terminava, de uma forma natural, o mesmo acontecendo com os fenômenos anímicos e mediúnicos. 

Todas as pessoas possuem o direito sagrado de ter suas próprias convicções, mas devem ter humildade e respeitar o direito das outras de possuírem também as suas crenças. A verdade é muito relativa; dela todos possuímos uma partícula. 

Tentei, certa vez, descrever a manifestação mediúnica a um grupo de amigos, contando uma história que havia recebido intuitivamente: “Estava chovendo e uma pedrinha, encostada em sua pedra-mãe, ficou curiosa quando viu uma gota d’água saltar de uma folha, que ficava no alto de uma árvore e, brilhando sob o reflexo do sol, mergulhar no lago, perdendo-se toda. A pedrinha perguntou a pedra-mãe o que era ser uma gota d’água e sumir no lago. A pedra-mãe, com sua sabedoria secular, respondeu: A experiência é um fenômeno individual e só serve para quem passa por ela. De nada lhe adiantará saber sobre a sensação da gota d’água, pois você jamais irá passar por ela; nem o lago saberá responder para uma segunda gota d’água, pois essa experiência só pertenceu à primeira gota: é uma experiência única. ” 

Portanto, devemos aceitar as críticas contra a mediunidade de uma forma natural, sem exigir das pessoas uma compreensão para a qual ainda não estão preparadas. 

Ninguém é médium por acaso. A mediunidade é uma ferramenta com a qual resgatamos parte de nossas dívidas passadas, através do trabalho de caridade. 

As entidades utilizam nossa mediunidade em dois sentidos. No primeiro, para nos ajudar, através da oportunidade de fazer a caridade, despertando nossa mente; no segundo, como uma chance de que elas também possam evoluir. Os médiuns precisam das entidades, da mesma forma que elas precisam deles. O trabalho espiritual quase sempre é bilateral. 

As entidades ficam felizes quando os médiuns decidem trabalhar também em estado mediúnico, e não só em estado anímico, pois dessa forma conseguem diminuir seus débitos pretéritos. 

Frequentei um terreiro de Umbanda cujo dirigente contou-me a seguinte história: “Nós éramos de uma família muito católica, e não aceitávamos sequer a ideia do espiritismo. Mas, para nossa surpresa, todos os dias 31 de dezembro de cada ano nossa mãe assumia uma expressão diferente da sua expressão normal e dizia coisas que iriam acontecer no ano seguinte. E, por incrível que pareça, as previsões eram certas. Numa dessas oportunidades, com voz diferente, ela falou: ‘ A partir de hoje, esta mulher vai adoecer e nenhum médico irá curá-la; estamos cansados de esperar que ela se decida a fazer a caridade através da incorporação. Havíamos combinado no espaço que ela reencarnaria e que nós teríamos uma oportunidade de fazer a caridade através dela. Como ela fugiu ao nosso trato, não teremos complacência. Depois de algum tempo, nossa mãe levantou da cama e disse: ‘Amanhã, às 17 horas, deixarei este corpo. Terminou minha missão’. Realmente, ela faleceu no dia seguinte e eu assumi, sem querer, sua missão cármica.” 

A mediunidade pode ser uma bênção para aqueles que a praticam fazendo o bem, como pode ser um terrível castigo para os que fingem ignorá-la, sabendo que possuem uma missão ou, pior, quando a utilizam para fins mesquinhos. 

Educar uma mediunidade é praticamente criar um seguro de saúde física e, sobretudo, mental. A energia emanada da mente do médium que não a educou volta-se invariavelmente contra ele mesmo, apresentando-se de várias formas. Uma das formas mais comuns são as alucinações visuais ou auditivas, com o consequente desequilíbrio psicológico. A mediunidade, todavia, também pode apresentar-se de forma suave e a principal característica de que um médium precisa desenvolver essa mediunidade é a repetição dos fenômenos. 

Os fenômenos mediúnicos possuem estreita ligação com os fenômenos extra-sensorias, ficando difícil separar, por exemplo, uma telepatia anímica de uma telepatia mediúnica. 

Uma coisa, porém, é certa: quando uma pessoa tem de fato uma forte mediunidade e não a desenvolve, educando seus efeitos, terminará invariavelmente num hospício. 

Todavia, se tiver à oportunidade de ir a um centro espírita, de qualquer linha de trabalho mediúnico, suas chances de ter uma vida normal são altíssimas. 

Lamentavelmente, muitas religiões ainda possuem preconceito contra a mediunidade e assistem, impassíveis, a demanda de seus fiéis. 

A Umbanda não alimenta nenhum tipo de preconceito, seja de cor, de credo, de raça ou social; suas portas estão abertas a todas as pessoas que estejam precisando da caridade. Ela não está preocupada com a religião das pessoas, mas com elas mesmas. A Umbanda não é o primeiro degrau da evolução do Homem, nem o segundo e nem o último, pois sabe que na escada da vida o importante é o próprio Homem. 

A Umbanda tem um ditado curioso que diz: “Quem não vem pelo amor vem pela dor.” 

Mas, felizmente, o amor à caridade tem levado milhões de pessoas aos terreiros, para desenvolver a mediunidade. Embora nem todos os médiuns sejam possuidores de excelentes dotes paranormais, podem tornar-se valorosos trabalhadores da seara divina, podendo efetuar a caridade através do transe, como também na qualidade de cambonos. 

É muito variável a forma de as pessoas chegarem aos terreiros. Umas são levadas, empurradas pela dor; outras por um elevado espírito de solidariedade humana, outras por mera curiosidade e a maioria porque veem na Umbanda uma possibilidade de solução imediata para seus problemas. Estes fazem da Umbanda uma forma de espiritismo utilitário. 

Conversando certa vez com uma entidade, minha esposa comentou como era triste ver no terreiro pessoas interessadas exclusivamente em resolver seus problemas particulares, muitos de cunho material, usando os trabalhos de caridade da Umbanda, sem pensar no próximo e só retornando ao terreiro, invariavelmente, quando estavam com novos problemas. A entidade respondeu: “Sabemos que existem pessoas preocupadas somente com elas mesmas; são prisioneiras de um grande egoísmo. Procuramos ajudá-las resolvendo seus problemas, brincando de pechinchar obrigações. De propósito. Mas as que podem ser aproveitadas, depois de algum tempo, sem que percebam, estarão vestidas de roupas brancas, descalças, fazendo parte do corpo mediúnico do terreiro. Usamos a solução de seus problemas da mesma forma que vocês utilizam mel num prato para pegar as moscas.” 

Realmente, muitas pessoas vão ao terreiro “buscar lã e saem tosquiadas”, e terminam nos ajudando nos trabalhos de caridade. 

Uma das partes mais importantes do processo de desenvolvimento mediúnico é o trabalho de desobsessão. As energias negativas dos obsessores são afastadas pelos médiuns, que são chamados de “médiuns de descarrego”, possibilitando à pessoa que está recebendo o passe desenvolver sua própria mediunidade. 

No terreiro, o médium nem sempre capta apenas a frequências vibratória de um espírito obsessor, que geralmente se manifesta urrando, gritando, muito agitado, como também dos espíritos sofredores, que se apresentam nos médiuns através de gemidos e choro. 

Com o passar do tempo, percebi que os médiuns eram capazes de captar também formas mentais, como inveja, ódio, ciúme, etc., projetadas por alguém na pessoa que está tomando o passe. Nesse momento, os médiuns incorporam com essas formas mentais, sentindo os mesmos efeitos de um espírito. Choram como se estivessem com um espírito sofredor e gritam como um obsessor. Acreditamos que seja mais uma representação da mente do médium, habituado a sentir esses sintomas num processo normal de transferência, no qual as vibrações negativas de um espírito saem, passando da mente da pessoa que está obsediada para a mente do médium. 

Quanto mais um médium captar as vibrações negativas que acompanham uma pessoa mais irá eliminar suas próprias energias negativas, pois as entidades que fazem à limpeza espiritual em sua mente levam toda a carga negativa. Daí a expressão muito usada na Umbanda: “É dando que se recebe.” 

Durante o desenvolvimento mediúnico, como no momento em que o médium recebe um espírito obsessor, ela poderá gritar, falar mal, rosnar, tomar as mais curiosas expressões corporais, num processo catártico, embora isso não constitua uma regra geral. 

Além de observar a captação de formas mentais pelos médiuns, percebi e passei pessoalmente pela experiência de incorporação não com o espírito de pessoas que já faleceram, mas com o espírito de pessoas vivas. 

Realmente não se trata de um fato novo, pois é sabido que, quando uma pessoa dorme, é comum seu espírito sair, sob a forma de projeção mental, e atuar na mente dos médiuns, até mesmo de países diferentes. Nesse caso, a comunicação é feita através da telepatia, que é uma forma de comunicação universal. Se assim não fosse, seria um grande desperdício de tempo o médium trabalhar espiritualmente durante algumas horas apenas nos dias de sessão. 

Quando uma pessoa começa a frequentar um terreiro, sem que ela perceba de uma forma nítida, sua mente já está assimilando os trabalhos espirituais, familiarizando-se com os rituais daquele terreiro e doando energias psíquicas aos mais carentes. 

Após frequentar, durante algum tempo, o terreiro, os médiuns começam a desenvolver sua mediunidade e, nesse momento, estarão usando o processo de aprendizagem mais antigo, que é o da imitação. Esse processo de imitação é válido e importante, mas até certo ponto. A partir desse ponto é prejudicial á evolução do médium, e chega às vezes até a ser grotesco, pois o médium perde sua autenticidade, passando a ser apenas uma cópia de seu modelo. 

Conheci em Brasília um terreiro no qual a dirigente dos trabalhos espirituais, quando recebia seu guia, mancava de uma perna. Estranhamente, todos os médiuns daquele terreiro, quando recebiam as entidades daquela falange, também mancavam. Em nosso terreiro, e em outros que visitei, vi inúmeros médiuns trabalhando com espíritos dessa falange, sem nunca mancarem. 

Os médiuns devem preservar seu estilo próprio de atuar com seus mentores, pois isso enriquece a Umbanda através da variedade de atuações, cada uma aprimorando sua forma de fazer a caridade. 

Certa vez, em nosso terreiro, um médium, ao incorporar pela primeira vez com seu guia o caboclo Pena Azul, pediu três folhas de mangueira. Ele trabalhou durante toda a sessão com aquelas folhas na mão esquerda. Era sem dúvida um trabalho de magia, cuja razão e significado só ele, o caboclo, sabia. Na sessão seguinte, antes de o caboclo incorporar em seu aparelho, lá estavam novamente três folhas de mangueira, colhidas por alguém para presenteá-lo. Quando recebi o meu guia, que dirigia os trabalhos, ele esclareceu que a força de um médium era interior e jamais exterior que havia sido válido o trabalho de magia, mas que aquilo não poderia ser transformado num hábito de trabalho, pois, do contrário, não haveria folhas de mangueira suficiente para os outros caboclos, além de condicionar o médium a só trabalhar com três folhas na mão. 

A imitação precisa ser combatida com mais rigor pelos dirigentes dos terreiros. Cada médium precisa estabelecer com seus mentores seus próprios códigos de trabalho. 

Quando a imitação não é combatida, começa a haver outro fenômeno: a competição. Assim, se um médium coloca um penacho quando está incorporado com seu caboclo, outro médium do terreiro se acha na obrigação de usar um penacho maior com seu guia. Se isso não for possível, usa também um saiote de penas. Se isso ainda não bastar, usa também arco e flechas, como já vi várias vezes. É uma cena muito triste ver os médiuns vestidos de índios, como se fossem a um baile de fantasias, para tentar fazer caridade. Nada disso é preciso. A força é interior, está na mente do médium, que a reforça com as energias de seus guias, bastando para isso uma concentração séria. 

Deixei de visitar um terreiro, apesar de ali realizarem um bom trabalho mediúnico, porque ficava com medo de levar uma machadada nos pés, pois o dirigente trabalhava atuado, usando uma machadinha de ferro. Ele alegava que era da falange de Xangô. Daí a razão da machadinha. O fato de trabalhar com a machadinha nas mãos não era o mais grave; o perigo era quando ele resolvia mostrar suas habilidades, vibrando a machadinha contra o chão de cimento, soltando faíscas para todos os lados. Acredito que naquele terreiro, muitos médiuns incorporavam de susto. 

Se não houver um esclarecimento para alguns médiuns da Umbanda, qualquer dia eles irão entrar no terreiro montados num cavalo branco, com espada, escudo, lança e capacete, dizendo que estão incorporados com Ogum. 

Para trabalhar num terreiro, o médium deve vestir-se com discrição, sem precisar chamar a atenção das pessoas. Lamentavelmente, por falta de informações e puro animismo, fazem de alguns terreiros mais um baile de fantasias do que uma casa de caridade. 

Em nosso terreiro usamos roupas brancas, simbolizando a pureza de sentimentos, imprescindível num trabalho de caridade. Somente nos trabalhos com os exus é que usamos calças pretas e camisas vermelhas. A cor das roupas não prejudica os trabalhos; antes, podem ajudá-lo com suas vibrações próprias. Os adereços é que devem ser evitados. 

Muitos médiuns de terreiros pouco esclarecidos quando visitam nosso terreiro causam um verdadeiro estardalhaço para incorporar, causando risos entre os outros que sabem que aquilo é uma projeção do próprio médium visitante. As pessoas que estão assistindo ao trabalho podem até pensar que incorporar dói, devido aos gritos, urros, grunhidos, saltos acrobáticos que antecedem o recebimento do guia. Nada disso é necessário. Não é preciso ficar de olhos virados ou arregalados, babando ou bufando, para dizer que está com um guia. Basta respirar um pouco mais acelerado para oxigenar o cérebro, facilitando a incorporação. 

A incorporação deve ser discreta e calma; o médium precisa ter autocontrole. Nunca esqueço o dia em que, trabalhando em nosso terreiro, cujas paredes eram de madeira, uma senhora incorporou e, em vez de sair pela porta, resolveu derrubar a parede aos empurrões. Não sei até hoje a quem ela queria impressionar. 

Mas, para nossa alegria, recebemos médiuns visitantes que incorporam muito bem, demonstrando bom senso e equilíbrio emocional. 

Algumas vezes trabalhei com o preto velho Pai Francisco, usando a minha voz natural, sem nenhum artifício no linguajar e sem perder a qualidade da manifestação mediúnica. Ele agia assim por saber que a pessoa com quem estava conversando estava preparada para compreendê-lo. Para outros, todavia, era preciso chamar um cambono para traduzir sua fala. Ele me esclareceu um dia, dizendo que às vezes o fazia quando em sua falange havia grande variedade de espíritos para transmitir as mensagens, uns mais evoluídos, outros menos. Todos tinham a sua oportunidade. 

Certa vez, por ocasião da invasão do IAPI, visitei um terreiro que nem existe mais. O dirigente, acreditando que estava me impressionando, disse: “Aqui no meu terreiro, para testar os médiuns, uso este caldeirão com azeite fervendo, para eles enfiarem a mão quando estão incorporados.” Não vi o teste, não precisava, pois sabia que em estado letárgico, independente de alguém estar ou não incorporado, isso é absolutamente possível, não provando nada, a não ser o estado de letargia da pessoa num dado momento. 

Não são as provas que comprovarão de fato a evolução dos espíritos, pois entidades atrasadas possuem até mesmo mais facilidades para se prestarem a esse tipo de papel. Qualquer entidade se for do seu interesse, pode letargizar um médium. Isso não significa, necessariamente, que ela é uma entidade de luz. 

Certa vez, num terreiro, no Gama, passei por uma interessante experiência de letargia. Ao iniciar os trabalhos, a dirigente pegou sete velas acesas e passou pelos braços e pernas. Quando percebi, estava lá na frente, também passando as velas acesas pelos meus braços e pernas, só que cheiros de cabelos, e nada aconteceu. Ainda assim não me sinto mais incorporado que um médium que não passou velas acesas pelo corpo. 

Não podemos fazer da Umbanda um espetáculo de circo. Os terreiros são casas de caridade. Muitos tratamentos serão efetuados nos planos físicos, mentais e espirituais, daí a necessidade de muita seriedade. 

A Umbanda é um hospital de emergência, desempenhando um papel social sem precedentes na história do Brasil, com seus milhares de terreiros. Graças a esse trabalho, muitas pessoas ficaram curadas de suas doenças físicas ou mentais. 

Se não houvesse a Umbanda, seria difícil andar pelas ruas sem encontrarmos milhares de pessoas desequilibradas, pois não temos condições de bom tratamento para as doenças mentais em nossos hospitais e hospícios. 

O transe observado na Umbanda já é uma forma eficiente de terapia, principalmente durante sua fase inicial, onde o médium passa por uma fase de catarse. Sabemos que essa liberação da energia reprimida e liberada através dos choques entre a energia do médium e a do guia funciona de uma forma equivalente ao eletrochoque, embora numa escala menor, mas com os mesmos resultados e sem sequelas, o que é mais importante. 

Na Umbanda, assistimos milhões de umbandistas ajudando milhares de irmãos que necessitam de uma caridade, sem objetivar nenhum lucro econômico, apenas o lucro humano. 

Muitas pessoas podem fazer a caridade sem entrar um terreiro de Umbanda, sem incorporar, ou sem o uso de roupas especiais, usando apenas a intuição. Durante o processo intuitivo elas ficam ligadas diretamente às informações contidas no espaço cósmico, onde tudo é registrado. Muitos guias espirituais já atingiram um estado tão evoluído que, sem as pessoas saberem, são despertadas por eles, para fazerem a caridade, tendo a intuição desenvolvida, esses guias trabalham num total anonimato. Mas o número dessas pessoas é pequeno, pois a intuição representa a forma mais evoluída da mediunidade. 

Na Umbanda do III Milênio a intuição será a forma mais sutil da mediunidade a ser utilizada em qualquer ritual e pode ser utilizada em qualquer circunstância. No processo intuitivo, as pessoas podem ser auxiliadas por seus mentores num nível tão elevado que só percebem a presença de seus mentores através da profundidade das mensagens. 

Para uma grande caminhada, o primeiro passo é o mais importante, pois vem logo depois da intenção. Assim, na caminhada espiritual, a incorporação é o primeiro passo e a intuição o derradeiro. 

(trecho extraído do livro Umbanda do III Milênio escrito por Túlio Alves Ferreira)

Nenhum comentário:

Postar um comentário